Por  Clara Days:
Palavras-chave: causa e efeito; equilíbrio; responsabilidade; respeito

A vida é uma permanente busca de equilíbrio, mas sabemos que, segundo as leis da natureza, da física e do universo, a harmonia é um estado passageiro, na dinâmica entre forças. Ser justo é a qualidade dos mais sábios dos sábios, aqueles a quem respeitamos acima de todos, porque cuidam do bem-estar individual e colectivo de um modo superior, despido de preconceitos: gerindo conflitos, apaziguando temores, fazendo-nos acreditar que há um propósito maior que nos regula e que somos capazes de nos harmonizar com ele.
Há a Justiça que vem de dentro para fora, nascida na demanda pessoal que nos impele para que regulemos o nosso estar, connosco e com os outros, em busca de pacificação. Há também o Ajustamento, que vem de fora para dentro, pondo-nos perante circunstâncias que podem ser mais ou menos imperiosas, às quais temos que reagir ou nos adaptar, que condicionam as nossas escolhas. Nos dois casos, buscamos a harmonia entre o interno e o externo, uma harmonia que respeite quem somos mas nos sintonize com tudo o resto.
A Justiça é racional, mas humana e amorosa. É imparcial, mas tolerante. Eleva-nos à igualdade, no respeito pela singularidade – permite a equidade. Espera de cada um aquilo que possa dar, dá a cada um aquilo que merece. A Justiça é mulher, porque os seus atributos correspondem à postura receptiva e cuidadora que a visão tradicional confere ao elemento feminino.
Baralhos diferentes atribuem-lhe diferentes lugares na numeração, entre os Arcanos Maiores, mas mantendo-a no segundo septenário, aquele em que, na viagem de cada um, vamos para dentro, para que nos conheçamos melhor, aprendamos e sejamos capazes de nos entregar. É designada “A Coragem” (Breakthrough), no Tarot de Osho Zen, outros nomeiam-na como “Responsabilidade” ou “Magistrado”.

Nas imagens, a balança e a espada são os elementos recorrentes e a figura humana é sistematicamente reportada à imagem da justiça legal: uma mulher que empunha ambas, estando a balança em equilíbrio e a mulher vendada. Nos baralhos de Tarot, a personagem surge frequentemente alada ou tem os olhos abertos. A sua pose é mais de aceitação e receptividade do que rígida e “justiceira”. Por vezes, na balança, há um objeto em cada prato, que são uma pena e um coração, referenciando-se a uma figura da mitologia egípcia, a Pena da Verdade, com que o deus Anubis fazia a avaliação do carácter dos mortos, podendo condená-los a ser devorados ou elevados ao paraíso e à reencarnação.
A letra hebraica que está associada a este arcano é LAMED, a aspiração ou contemplação pelo coração. O número 8 representa, para certas escolas, o equilíbrio cósmico – lembremos que a sua configuração, rodada para a horizontal, corresponde ao símbolo de infinito. Já o 11 é um número-mestre, de importante significado espiritual. Título esotérico deste arcano maior: A Filha dos Senhores da Verdade ou O Governante da Balança.
Astrologicamente, de um modo muito óbvio, a Justiça / Ajustamento está associado ao signo Balança, de Ar, cardinal, regido por Vénus. O Sol entra em Balança precisamente num momento de Equinócio, um dos dois de ano em que o dia e a noite se equivalem rigorosamente, em todo o nosso planeta. No hemisfério Norte, inicia o Outono; no Sul, a Primavera. Balança fala-nos, assim, da busca de harmonia e equilíbrio, do complemento e união entre o Eu e o Tu. Há aqui doçura e estética, é um signo humano, nas qualidades que o caracterizam.

Não será, certamente, por acaso, que este Arcano surgiu precisamente nesta semana, em que termos um equinócio e o Sol entra em Balança. Tudo parece conjugar-se.
A inspiração desta carta pede-nos um tempo para tentar harmonizar a nossa vida, com elevação e imparcialidade, tanto quanto nos seja possível. Pede também, se tal não for, que sejamos capazes de nos ajustar às circunstâncias em que vivemos de um modo que nos possa ser favorável, com inteligência e flexibilidade.
Cada decisão que tomarmos deve ser pesada e considerada, não podemos precipitar-nos. Nesta justiça que nos é sugerida, tem de haver compreensão e perdão. Lembremo-nos que toda a busca de equilíbrio, na vida, pede que se façam concessões, que tentemos conciliar, dum modo positivo e criativo, o que nos surge como oposição.
Nestes dias que temos pela frente, não nos foquemos em remar contra a maré. Procuremos, sim, orientar as nossas velas para que a força do vento nos leve ao lugar que queremos atingir. É essa a principal mensagem que a Justiça, hoje, nos transmite.

Imagem : Crystal Tarot, de Elisabetta Trevisan, 2001

Clara Days