Por Clara Days:
Palavras-chave: Moderação; combinação; integração; espiritualização.
A Arte da Temperança é a de ser capaz de integrar os opostos e combiná-los, na criação de uma nova harmonia. Está associada ao princípio alquímico “solve et coagula” (dissolve e combina) e pede-nos que sejamos capazes de, pela nossa intervenção, transformarmos o que não está a funcionar em algo novo, belo e coerente.
A tradição do Tarot europeu chama-lhe Temperança, mas Alistair Crowley, no seu Livro de Thoth (1944), designou-a como Arte; a partir daí, esta outra denominação tem os seus seguidores. E é de Alquimia (aqui num sentido espiritual, entenda-se) que fala.
Moderação é a palavra-chave. No seu duplo sentido, de actuar sem grandes ondas ou exibições, mas sobretudo de ser o moderador, o que aproxima os contrários para manter a calma e permitir consensos. Refere-se também a um processo interno, pessoal, a um acordo harmonioso que ocorre entre o consciente e o inconsciente, pacificando contradições.
A Temperança é a essência da diplomacia. E não significa apenas jogo de cintura para evitar conflitos, significa sobretudo a disponibilidade e intenção de aceitar a transmutação, uma mudança que integre duas vontades, dois sentidos, e transforme o que podia ser uma contradição numa solução.
As imagens das cartas mostram-nos este Arcano Maior de duas formas, abarcando a maioria dos baralhos: para a Temperança, no sentido mais tradicional, temos a mulher / anjo (ou um arcanjo), com uma taça em cada mão, fazendo transitar de uma para a outra um líquido cuja trajectória é impossível segundo as leis da gravidade. A substância desliza obliquamente, por vezes ondulando, de um vaso para o outro. Geralmente a mulher está num cenário natural, junto de um curso de água, e tem um pé em terra, outro no rio ou lago, assim simbolizando a sua capacidade de combinar os dois elementos (enquadramento que é também comum para a Estrela). Mas na outra versão, a Arte, a alusão alquímica é explícita e de novo uma mulher a personagem. Desta feita derrama num caldeirão duas substâncias incompatíveis, na maioria dos casos a Água e o Fogo, para as juntar e combinar. A mulher pode ter duas cabeças, duas caras, uma tradução visual do diálogo entre o seu Eu consciente e o inconsciente – e os dois se tornam um, no caldeirão / vasilha. É frequente ainda a presença ou alusão aos animais de poder relacionados com os elementos que se opõem (no caso, Águia e Leão).
Astrologicamente, esta carta está associada a Sagitário, meio humano, meio animal, do saber e das viagens. A letra hebraica que lhe corresponde é SAMECH ou SAMEKH, o ciclo interminável. O seu título esotérico: A Filha dos Reconciliadores, a Parteira da Vida.
Na semana que entra é-nos sugerido que actuemos com moderação e nos preparemos para encontrar soluções conciliadoras. Precisamos das qualidades de adaptação, equilíbrio e ajustamento harmonioso. Talvez não tomemos decisões drásticas, porque esta energia não tem tal poder, mas aquietaremos o percurso, limando conflitos e encontrando soluções válidas de compromisso.
Usemos o nosso sentido diplomático e pacifiquemos as nossas próprias contradições. Só assim poderemos avançar.

Imagem principal: Tarocco Italiano (Dotti)

Clara Days

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