Por Clara Days:
Palavras-chave: fim; transformação; renovação; renascimento.
Para um iniciante, este Arcano Maior 13, A Morte, mostra-se como a carta mais temível. No Tarot de Marselha (séc. XVIII) e em outros que nele se baseiam ou em que se inspirou, não lhe é sequer atribuído nome: era a carta “inominável”.
Os estudos simbólicos ajudam a entender um outro sentido que lhe deve ser atribuído, no plano da evolução humana. A Morte fala de um fim inevitável, que levará a transmutações e novos espaços de realização. Isto é, ela fala de algo que tem de acabar para que o novo comece, de acordo com o Princípio Universal da Transformação.
Guarda relações simbólicas com a terra, com os quatro elementos, e é associada ao esterco, não por este ser uma matéria desagradável, mas pelo processo de transmutação material que representa – matéria orgânica que morre e é transformada, para alimentar nova matéria.
O primeiro aspecto a reter é de que o fim que a Morte anuncia é necessário e inevitável, o que não significa que seja bom ou mau. A lição reside no facto de que quando largamos aquilo de que não precisamos encontramos o espaço para podermos conseguir o que necessitamos. O velho dá lugar ao novo, ainda que deixe saudade, pois assim tem de ser, para assegurar a manutenção da vida.
Há no nosso instinto de preservação um apego ao hábito que pode tornar-se escravizante. Muitas vezes sentimos que não estamos bem, mas falta a coragem de largar o que nos está pesando, porque deixamos que prevaleça o medo do que se segue, o medo do ainda desconhecido. Apegamo-nos a objectos, ou pior, a situações que manifestamente estão a tornar-nos infelizes, e esta Morte vem pedir que nos libertemos dessa prisão e arrisquemos mudar, tranformarmo-nos, metamorfosearmo-nos, se necessário.
Quando a vida corre mal, há sempre algo que podemos largar, que devemos largar, para seguir em frente e encontrar novo rumo. Assim como um navio larga o lastro para poder manter-se à tona, precisamos nós de deixar ir o que já não serve. Depois, podem vir mágoas, certamente. Mas há um espaço que se abriu e que pode ser preenchido com uma novidade esperançosa, com os ventos do futuro.
O autor Van Rijneberk divide o estudo deste arcano em três aspectos: o número treze, o esqueleto, a foice. Como emissário de uma premonição sombria, o treze tem o seu antecedente cristão nos comensais da Última Ceia, de onde a tradição extraiu uma superstição bastante popular da Idade Média: quando treze pessoas se sentam à mesa, uma delas morrerá em breve.
Nas representações visuais tradicionais a Morte é um esqueleto, frequentemente a cavalo, e transporta consigo a foice de cabo longo com que vai tirando a vida – junto a si, pelo chão, há pedaços de corpos decepados. Ora, na arte europeia cristã primitiva não há traços da representação devastadora deste símbolo. O esqueleto propriamente dito só aparece em todo o seu esplendor nas “Danças da morte”, disseminadas pelos cemitérios e claustros europeus, não antes do séc. XV e contemporâneas dos primeiros baralhos de Tarot conhecidos. Nestas “danças”, no entanto, não há esqueletos com foices, mas sim com diversos objectos, relacionados provavelmente com a profissão do falecido que representam. Quanto à foice, é uma metáfora bíblica, referida como instrumento de justiça empunhado por Jeová, pelo Filho do Homem e, mais tarde, pelos anjos.
Os baralhos recentes e as representações mais esotéricas pode libertar-se totalmente desta referência macabra e apresentar a Morte como uma bela senhora, como uma figura etérea ou outra imagem de simbolismo positivo, relacionada com os ciclos da vida.
Astrologicamente, este Arcano Maior está associado a Escorpião, signo fixo de água, das águas paradas que escondem, sob uma superfície aparentemente calma, um intenso fervilhar de vida. A letra hebraica que lhe corresponde é NUN, o Messias, herdeiro do trono. O seu título esotérico: “O filho dos Grandes Transformadores”.
Temos pois uma semana em que nos é pedido que sejamos capazes de cortar com o que nos está a impedir de avançar. Aproveitemos a energia da Morte sem medos, soltemos as amarras para que o “barco” possa seguir.
Há uma sensação de paz conquistada, após sermos capazes de deitar fora o que já não serve. O gesto de deixar para trás traz consigo uma semente de esperança e uma vontade de recomeço. É a energia que nos é sugerida para os dias que vamos viver. Não será um fim, antes um princípio que se radica numa transformação irreversível.
Libertemo-nos.
Imagem : Tarocco Neoclassico de Ferdinando Gumppenberg (1807 a 1816) edição Il Meneghello (2003)

Clara Days

Anúncios