Por Clara Days:
Palavras-chave: confiança; inocência; decisão; caminho.
Numerado com o zero, o Louco pode ser considerado o primeiro ou o último dos Arcanos Maiores do Tarot. O seu lugar é único e muitos o consideram o protagonista, o viajante que faz a caminhada de encontro consigo e com os outros, a aprendizagem espiritual que o percurso pelos restantes 21 Arcanos representa. Sendo princípio ou fim, ele é sempre a transição, o mudar de ciclo.
Lembremos que amanhã, Primeiro de Maio, é um dia muito especial na tradição céltica, que deixou vestígios um pouco por toda esta Europa onde se criou o Tarot. A passagem para o 1º de Maio é a celebração do Beltane, simétrico no calendário ao Samhain (Todos os Santos, Dia de Finados, Halloween). O Beltane é um festival da fertilidade, simbolizando a união entre as energias masculina e feminina, a fertilidade da terra e os fogos do deus celta Belenos, com toda a sua energia e luz. Originalmente marcava o início do Verão com o mais alegre dos festivais celtas, onde os participantes dançam e se alegram à volta das fogueiras. É uma passagem muito importante no ciclo de festividades anuais, que deixou vestígios fortes em Portugal, ainda hoje celebrados (lembro as Maias ou as flores do Maio).
Voltemos ao Louco, transição de ciclo, princípio ou fim. Prefiro tomá-lo como princípio, como potencial. Esta é a carta que pode significar a inconsciência absoluta ou a consciência iluminada. Ele representa a Criança, ora sábia na sua espontaneidade e inocência, ora pueril na sua inconsciência e exagero. Caminha pelo mundo como se vivesse fora dele, os problemas do quotidiano não o afectam pois ele sente que há coisas mais importantes e que as verdades são relativas, amanhã poderão ser outras. Assim, vive despreocupado e em harmonia com o seu caminho, no presente de cada momento.
O Louco abre as portas e janelas a todas as possibilidades. Ajuda a decidir nas encruzilhadas, não pelo processo racional ou pragmático, mas guiado pela intuição e pelo desejo. No entanto, a sua ingenuidade e excesso de confiança fazem-no correr riscos desnecessários, o que traz consequências.
O Louco incentiva-nos a ser espontâneos, a agir impulsivamente mas com confiança. Na verdade, o viajante eterno, que caminha livremente por todas as regiões da existência e que está preparado e pronto para qualquer tarefa, seja de libertação ou de limitação, é considerado um louco, mas é senhor de Tudo.
Nos baralhos ancestrais o Louco é literalmente apresentado como um adulto de modos infantis, apatetado, uma criança grande que é em alguns casos escarnecida pelos outros ou pelas crianças pequenas. A sua persistência como elemento dos jogos de cartas transformam-no, posteriormente, em Diabrete ou Joker, carta-talismã que representa sempre a excepção, à margem da regra.
Nas versões mais conhecidas, e na maioria dos baralhos, sobretudo a partir do séc. XVII, este Arcano é visualmente apresentado como um adulto de trouxa ao ombro, na ponta de um pau, acompanhado de um cão que muitas vezes lhe abocanha a perna, enquanto ele, Louco, tem os olhos no céu e parece aproximar-se de um precipício muito terreno. Versões que procuram simbolismos paralelos, como o Tarot de Crowley, mostram-no como um fauno e associam-no à espiral, a animais de poder (leão, crocodilo) ou de liberdade (pomba, borboleta) e a elementos terrenos de prosperidade, como as uvas.
Está astrologicamente associado ao elemento Ar e também a Urano, o planeta do altruísmo e da originalidade, também da imprevisibilidade. Em numerologia, o Zero é o potencial de todos os números, tudo ou nada. O Louco corresponde ainda à letra hebraica ALEPH ou ALEF, que lembra o paradoxo de Deus e o Homem. O seu título esotérico é “O Espírito do Éter”.
Esta semana pode ser a oportunidade que esperávamos para dar aquele salto qualitativo e iniciar uma nova fase da nossa vida, mas para isso é preciso a coragem quase cega deste Louco, pois rumar para um desconhecido pode ser assustador.
A melhor arma é a espontaneidade, ou seja, não sentir a necessidade de provar nada a ninguém, nem a nós próprios. Vamos descobrir os cantos do nosso mundo e olhá-los como uma criança, isto é, como se fosse a primeira vez que os vemos.
Vivamos o presente. Apostemos no futuro.
Clara Days
Imagem  – Tarot de Crowley, a partir do Livro de Thoth, com desenhos de Frieda Harris (séc. XX, realizado em 1944)

Anúncios