Por Clara Days:
Palavras-chave: introspecção; busca interior; solidão; peregrinação.

A semana dos Enamorados levou-nos ao encontro do Outro, procurando o nosso complemento; o Eremita propõe agora que vamos ao encontro de nós próprios. Pede-nos paciência, dá-nos tempo e convida à auto-análise, ao auto-conhecimento. Tudo o que é superficial é desprezado porque este é um solitário percurso interior em busca do mais verdadeiro que haja em cada um de nós. O que nos motiva? Quais os princípios e valores em que fundamos as nossas raízes? Para onde devemos ir, em consonância com o que somos e não com o que a vida social nos impõe?
É como se de repente a vida desacelere, o ruído exterior abrande, e fiquemos a sós connosco. Qual o propósito da nossa jornada? Qual o sentido dos nossos actos? Por onde levar o nosso caminho? São mais as perguntas e menos as respostas, num percurso íntimo de compreensão que nos possa conduzir à aceitação. É o princípio da introspecção a guiar-nos passo a passo, sem desvendar futuro mas permitindo que vislumbremos o lugar certo para pôr o pé, tacteando, sem pressas, sentindo o apelo que que está para vir a impelir-nos devagar. O percurso é um somatório de passadas, e cada uma deve ser valorizada e justificada. No fim, fará sentido.
O caminho faz-se caminhando, lembra o Eremita. Quem somos? De onde vimos? Para onde devemos ir?

E nas cartas ele é um velho peregrino, apoiado no seu bordão, envolvido numa capa com capuz, numa auto-suficiência despojada. Transporta na mão o objecto simbólico para conduzir a sua procura: a lanterna ou a ampulheta. A lanterna, com a fraca luz que dá, é suficiente para que se não perca; a ampulheta dá-lhe tempo e paciência para viver cada momento como único e irrepetível. Não há outras pessoas ali, naquele lugar mais ou menos inóspito e na escuridão da noite. No entanto, há animais que podem acompanhar a caminhada, geralmente um canídeo mais parecido com um lobo do que com um animal doméstico, ou mesmo o mítico Cérbero de três cabeças. Os animais, quando surgem, são selvagens ou silvestres, donos de si: estão ali de livre vontade, para dar um sentido mais terreno e integrado a esta viagem. A luz da lanterna é uma estrela-guia, estrela pequenina e domesticada, mas que pode alumiar até ao caminho de alguém que o queira seguir. Ele irá sempre à frente, enfrentando o desconhecido e desvendando-o, centímetro a centímetro, segundo a segundo.
O Eremita está associado ao signo de Virgem, mutante de terra, analítico, virado para o detalhe. O número 9 é o da entrega aos outros, do altruísmo – o contrário do egoísmo. A letra hebraica que lhe corresponde é YOD ou YUD, a mão. Como título esotérico ele é “O profeta do Eterno” ou “O Mago da voz do Poder”.

Espera-nos um tempo mais lento e silencioso, esta semana. Não é o melhor momento para grandes expansões energéticas, antes de concentração e meditação íntima. A serenidade do Eremita acompanhar-nos-á para estarmos mais em paz connosco e querermos perceber.
É uma boa altura para avaliar intimamente o nosso percurso de vida, as nossas prioridades. Vivemos coerentemente com o que somos? Como fazê-lo? Como respeitar os princípios e valores que guardamos no lugar mais sagrado que há dentro de nós? Como progredir em repeito por nós próprios?
Não nos deixemos distrair pelo ruído ou pressa dos acontecimentos. Procuremos momentos a sós, íntimos e disponíveis, para melhor compreender. Virarmo-nos para dentro não nos afasta da vida, prepara-nos para ela, para o devir. A seu tempo (oh, como é importante o tempo do Eremita!) sairemos para a luz exterior.

Imagem: Tarot de Rider-Waite, ilustrado por Pamela Smith (1910)

Clara Days

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