Por Clara Days
Palavras-chave: Espiritualidade; intuição; silêncio; mistério.

No Tarot ancestral foi chamada de Papisa. Está associada ao princípio feminino universal, na dimensão espiritual, irracional. Ela é o lado lunar da Mulher, no seu sentido simbólico. A Sacerdotisa está para a vida interior como a Imperatriz está para o corpo e o dia-a-dia. É o Yin, receptivo e conservador do universo, na sua acepção original; representa o princípio passivo, feminino, nocturno.
Com este Arcano Maior 2 temos antes de mais a emergência do subconsciente. Opera na nossa vida interior, sem palavras, sem sensações, antes com as emoções e com uma sabedoria profunda que não se explica, a que geralmente chamamos intuição. É também a fonte mágica dos sonhos, sinais do que precisamos de resolver e ainda não soubemos como.
A Sacerdotisa é quietude, observação interior, atenta aos segredos do seu coração e gerindo o que precisa de pacificar internamente, em solidão e silêncio. Como se nada dependa da sua vontade, deixa acontecer, mas não sofre. Interioriza, de modo íntimo, como numa gestação. São-lhe atribuídos poderes psíquicos, mas a verdade é que todos temos acesso a ela, dentro de nós. O seu processo mental permite-lhe chegar às raízes, ao coração dos problemas, encontrar-lhes o sentido, pacificando as emoções e abrindo caminho para a sua resolução.
É importante que retenhamos isto: embora na designação a Sacerdotisa seja a intermediária com a transcendência, ela representa a interiorização. O seu papel principal não é de relação com uma divindade externa, antes o de levar cada um a compreender-se e aceitar-se, num caminho de auto-conhecimento.

As cartas dos diferentes baralhos representam-na como uma oficiante religiosa, devidamente adornada para um ritual. Se primitivamente estava vestida como Papisa cristã, a generalização e abertura do Tarot a outras correntes espirituais traz-lhe outros tantos símbolos de religiosidade ou de relação com um divino. Sentada ou de pé, parece meditar e emana tranquilidade. É frequente a presença de um véu ou uma cortina, que separa o visível do que está oculto, símbolo de mistério. A presença da Lua, do quarto crescente, é muito frequente e há muitas vezes algo de nocturno na cor ou nos elementos do cenário. Frequentemente a Sacerdotisa está entre duas colunas, geralmente de cores diferentes, ou uma branca e a outra preta (simbolizando a dualidade, entre a luz e a sombra).
É associada astrologicamente à Lua, planeta que representa a Carência, também vida emocional. A letra hebraica que lhe corresponde é GIMEL ou GUIMEL, a recompensa. O número dois, da polaridade, é a ambivalência que existe em todas as coisas.O seu título esotérico: “A Dama do Eterno”.

Na semana que entra, com um eclipse lunar já amanhã, a Sacerdotisa propõe-nos uma viagem interior. Pede um tempo tranquilo, pede meditação.
Dediquemos a nossa atenção ao que nos inquieta, para lhe entendermos a raiz. Foquemo-nos na auto-aceitação e escutemos a nossa voz interior, mesmo que encontremos medo ou sofrimento; para ultrapassá-los, precisamos de lidar com eles, de os reconhecer, enquadrar e compreender.
Criemos situações de intimidade e paz para este exercício de espiritualidade. Cada um sabe onde se sente mais próximo da sua essência: de noite, de dia, junto ao mar, no jardim, num templo, com música, em silêncio, ao amanhecer, ao entardecer… Procuremos o tempo e o lugar que nos ajude a meditar.
Estejamos atentos às mensagens da nossa mente, aos sonhos, às emoções espontâneas. Se for preciso, rir; se for preciso, chorar.
Aceitemos o fluir da nossa verdade mais pessoal. Deste tempo de conexão connosco poderemos sair mais serenos e convictos, mais fortes para nos abrirmos de novo ao mundo.

Imagem  – Tarot de Crowley, desenhos de Frieda Harris – primeira edição em 1969 (realizado entre 1938 e 1943)
 Clara Days

Anúncios