Por Clara Days:
Palavras-chave: Mudança; oportunidade; ciclo; karma.

O simbolismo da Roda da Fortuna – ou Roda da Vida – relaciona-se sem dúvida com o conceito dos ciclos (o dia, as estações, a vida do homem), ou seja, daquilo que nasce para morrer, mas que também morre para ressuscitar. Vem então esta energia inspirar-nos, justamente, na semana em que teremos um equinócio, quando em todo o mundo o dia e a noite têm a mesma duração, para em seguida continuarem numa nova etapa. No hemisfério Norte, é o início do Outono, que representa o declínio das forças da natureza, enquanto que no Sul se trata da Primavera, sua contrária, tempo de renascimento.
Temos aqui a representação do Princípio Universal da Mudança, que nos diz essencialmente que tudo está em movimento, mesmo que pareça estar parado, e nessa permanente mudança se alternam e contrabalançam altos e baixos, alegrias e tristezas, luz e escuridão, em ciclos renovados em que o fim e o princípio estão unidos.
O mito da Roda, sendo a Dama Fortuna a mulher que a faz girar, é uma das alegorias mais antigas e populares. Fala-nos de destino, do que está fora do nosso alcance controlar, mas que determina na nossa vida tempos melhores e piores, aos quais precisamos de nos ajustar para gerir a nossa vontade, dentro da margem de livre arbítrio que sempre nos é concedida.
Em vários textos romanos descreve-se o Destino como uma mulher cega, louca e insensível, que atravessa a multidão caminhando sobre uma pedra redonda (para simbolizar a sua instabilidade). A representação da roda aparece com frequência em sarcófagos egípcios, como evidente alusão ao carácter cíclico da vida. Reencontramos este conceito visual na Europa, a partir de meados do século XIII, em rosetas de várias catedrais góticas (Amiens, Trento, Lausanne) e de numerosas igrejas: pequenas figuras, representando os momentos e estados da vida, que sobem e descem pelos raios de uma roda. A substituição das pessoas, frequentemente reis ou outros poderosos, por animais ou monstros, é um pouco mais tardia (século XIV, ou final do XIII), mas a ideia que este arcano simboliza é certamente mais antiga do que a civilização ocidental.
René Guénon afirma que a roda é um símbolo de origem céltica e assinala o seu parentesco com as flores emblemáticas (rosa no Ocidente, lótus no Oriente), com as rosetas das catedrais góticas e, em geral, com as figuras mandálicas. No taoísmo aparece como metáfora do processo ascendente-descendente (evolução e involução, progresso espiritual e regressão).

As representações visuais desta carta colam-se à tradição europeia e mostram-nos a Fortuna fazendo girar a sua roda de madeira, ou apenas a roda, agarradas à qual personagens humanas ou animais ascendem e descendem. Frequentemente, surge circundada pelas quatro bestas simbólicas dos elementos que representam as funções psicológicas: sensação (touro), emoção (leão), pensamento (anjo) e intuição (águia).
Os baralhos mais recentes, fruto duma época de cruzamento de filosofias de pensamento ou de espiritualidade, utilizam outros recursos simbólicos, das mais variadas origens, mantendo no entanto um elemento circular como figura central. O símbolo da tradição filosófica chinesa que representa as energias yin e yang é um dos mais frequentes. Também frequente é a associação desta carta à figuração da Árvore da Vida, símbolo de harmonia universal.
A Roda da Fortuna está astrologiacamente associada a Júpiter, pai dos deuses, tradicionalmente conhecido como “o grande benéfico”. A letra hebraica que lhe corresponde é KAPH ou KAF, o poder para actualizar o potencial. O número 10 é a base da estrutura de explicação do Universo para os pitagóricos e os cabalistas. Título esotérico deste arcano maior: “ O Senhor das Forças da Vida”.

Vamos esta semana passar pelo equinócio, que, tal como outros acontecimentos celestes (fases da lua, por exemplo) é um momento muito específico que, física ou filosoficamente, nos pode inspirar. Não se trata de uma data ou hora arbitrária, como a passagem de ano – é um momento natural, concreto e e único à escala planetária, importante no ciclo anual da Terra.
Usemos esta ideia de ciclos que se entrelaçam para olhar para a nossa vida como uma sucessão de situações ascendentes ou descendentes, mais luminosas ou mais sombrias. A frequência com que se sucedem em alternância, como se se trate de uma busca de equilíbrio semelhante à das leis da física, não é coincidência: é a ordem natural. Como diz o ditado: “após a tempestade vem a bonança”. Assim, pós um momento de clímax virá um anti-clímax, após a acção o descanso, após a vigília o sono. Se assim não for, o nosso corpo não suportará.
Identicamente se passa com os tempos da nossa vida. Ninguém pode viver em permanente sucesso – como, inversamente, não se sobrevive psicologicamente em permanente sensação de fracasso. Em ciclos mais longos ou mais curtos, o nosso olhar atento pode determinar tempos de ascensão e descida na nossa vida. Trazemos no ADN uma resiliência perante o sofrimento que vem do nosso instinto de conservação. A dor atenua, para que lhe sobrevivamos e regressemos à luta.
Neste equinócio, olhemos para o tempo que estamos a viver como um ponto em movimento, um momento do ciclo de vida em que nos encontramos, em que a consciência da busca natural de harmonia nos permite antecipar o que vai acontecer a seguir, em termos subjectivos. Preparemo-nos então para relativizar o impacto do bom ou do mau, com a consciência de que são passageiros.
A nossa vida está sempre em mudança, mas há momentos em que temos mais lucidez para nos apercebermos das oportunidades que estão ao nosso alcance. Este pode ser um deles. Aceitarmos o que está fora do nosso controle e concentrarmo-nos no que está ao nosso alcance fazer para melhorar, eis o caminho.
Bom equinócio para todos vós!

Imagem  – Tarot da Lombardia de Ferdinando Gumppemberg, 1810

Clara Days

Anúncios