Por Clara Days:
Palavras-chave: introspecção; auto-conhecimento; procura; caminho.

O velho Eremita visita-nos esta semana, convidando ao silêncio e à introspecção. É como se haja uma desaceleração, uma vivência diferente do tempo, mais solitária e pessoal. É como se precisemos de nos recolher, de fechar os olhos e olhar para dentro, procurando iluminar lados de nós próprios que se ocultam na sombra. A sua energia convida a um encontro connosco, em busca de auto-conhecimento.
O princípio do auto-conhecimento é uma base filosófica transversal a diferentes épocas e culturas. “Conhece-te a ti mesmo” é um aforismo grego inscrito na entrada do templo de Delfos, em que Sócrates se terá baseado. A frase completa é “conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. A Suda, uma enciclopédia grega de conhecimento do século X, diz: “o provérbio é aplicado àqueles que tentam ultrapassar o que são”.
Esta relação do auto-conhecimento com o conhecimento do universal ou do sagrado pretende mostrar o quanto é necessário sabermos quem somos para nos sintonizarmos com tudo o que nos rodeia e podermos compreender-lhe o sentido.
O Eremita é uma personagem que viaja, numa busca difícil em território inóspito, sendo ele próprio o portador da réstea de luz que lhe guia o caminho. Passo a passo, define o seu percurso. Não está ali para orientar os outros,o que não invalida que possa ser seguido.
A simbologia de uma viagem de quase peregrinação alia-se à idade avançada, à solidão e à noção de tempo, primitivamente representada por uma ampulheta que a personagem transporta na mão. O Eremita é o velho peregrino, despojado e concentrado, procurando caminho sem pressas nem bússola, apenas guiado pelo que vai aprendendo.
O estado de iluminação e de descoberta da verdade, que o Eremita busca, não será produto do estudo, mas de uma prática acompanhada de reflexão constante sobre as suas acções e atitudes, e de como modificá-las para se tornar uma pessoa melhor. É como se, a exemplo deste Arcano Maior, a vida seja uma obra de arte em que nos podemos ir moldando, permanentemente, aperfeiçoando-nos no decorrer da existência.

Há nas representações gráficas das cartas, através dos tempos, elementos comuns: o capuz e bordão de um caminhante ou frade mendicante, que transporta na mão uma ampulheta ou uma lanterna / candeia. A idade do Eremita parece avançada, excepto em raras representações mais recentes que procuram associações simbólicas mais diversas. O cenário despojado ou rude, geralmente representado num momento de escuridão, é parcialmente iluminada pela fonte de luz que a personagem transporta. Por vezes, há a presença de animais silvestres ou mitológicos. É relativamente frequente que o Eremita caminhe sobre cobras vivas. Outras personagens humanas, não: a solidão é aqui parte da mensagem visual.
Astrologicamente, o Eremita está ligado ao signo de Virgem, mutante – logo flexível, transformável – e de terra – ligado ao concreto e a cada detalhe. A letra hebraica que lhe corresponde é YOD ou YUD, a mão. A numerologia diz-nos que o número 9 é o da compaixão e da universalidade. Título esotérico deste Arcano Maior: “O profeta do Eterno” ou “O Mago da voz do Poder”.

Nesta primeira semana de Outubro seremos inspirados por uma energia que pede que nos dediquemos a nós, não na dimensão física do corpo e dos sentidos, mas virados para o nosso eu interior, para melhor nos conhecermos. Vai ser necessário algum recolhimento e um tempo de absoluta disponibilidade para que nos consigamos concentrar. Conquistemos esse espaço pessoal. Questionemo-nos.
Onde estamos, relativamente aos nossos sonhos? Onde estamos, relativamente aos princípios em que acreditamos? Por onde viemos? Por onde podemos ir?
Não se trata de uma avaliação, antes de uma constatação pacificadora. O que nos trouxe até ao presente foi guiado pelas circunstâncias e pelas nossas decisões. Predominarem umas ou as outras pode estar, ou não, dependente da nossa vontade. Mas o progresso faz-se sempre em função destas duas ordens de valores.
E agora? Por onde ir? O importante talvez não seja a meta, mas a verdade que pomos em cada passo, que deve ecoar o lado mais nobre da nossa essência.
Iluminemos cada momento. É só um passo de cada vez. Afinal, o caminho faz-se caminhando…

Imagem : Tarot de Visconti Sforza (séc. XV)

Clara Days

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