Por Clara Days:
Palavras-chave: pertença; crença; moral; sagrado.

O Hierofante é o Sacerdote Supremo, designado por Papa no Tarot da tradição europeia. A palavra deriva do grego, onde Hierophantes (em grego antigo εροφάντης) significa “aquele que explica as coisas sagradas”. Representa, entre os Arcanos Maiores, o Princípio da Transcendência Espiritual.
Enquanto que a Sacerdotisa se relaciona com uma abordagem ao sagrado “feminina” (intuitiva, irracional), o Hierofante representa a relação racional com o que é transcendente ou “divino”. Ele não se limita a conhecer o pensamento que vem das gerações passadas, ele questiona e problematiza, mas mantendo o dom da fé, da crença.
A tradição interpretativa do Tarot diz que o Hierofante é o mestre iluminado que advoga o poder da ideologia e da moral, como que um guardião, uma entidade reguladora da vida pessoal e espiritual na comunidade. Preside a rituais, cria pontes entre o espírito e a matéria – é pontífice. Traz sabedoria mas pede conformidade, radicada em convicções profundas. Apela ao sentimento de pertença, ou, melhor dizendo, trata-se do preço que cada um paga em matéria de liberdade pessoal, para pertencer a um grupo que acolha e enquadre. A comunidade a que ele preside é contentora em dois sentidos: da protecção e da limitação.
Há no entanto uma leitura mais actual para este Sumo Sacerdote do Tarot: a de que ele representa o “mestre interno” que há em cada um de nós. Grosseiramente, poderíamos associá-lo ao conceito de super-ego.
A noção de que cada um transporte em si uma dimensão sagrada, de que possamos ter essência divina, é tradicionalmente entendida como um sacrilégio, à luz das religiões dominantes monoteístas (cristianismo, islamismo e judaísmo). Mas é esta interpretação do Hierofante que faz mais sentido, no pensar da actualidade: baseados nas nossas crenças e princípios, reflectimos para conhecer e progredir, sem seguir cegamente os dogmas. A base será a fé, crença ou convicção, os limites serão os da ética.
Preservar, alimentar, aumentar o que há de sagrado em nós, eis a proposta mais radical que o Hierofante nos traz.

As representações gráficas partem do primitivo Papa, devidamente paramentado para o ofício religioso. Com o andar dos tempos passam a surgir figuras de hierarquia religiosa, variando as culturas ou religiões aludidas. No entanto, a influência do aspecto visual do Papa católico predomina. O uso de manto, de bastão, de coroa ou chapéu ritual, o trono, investem-no de poder. Por vezes tem na mão uma chave, a dos segredos sagrados. Outros sacerdotes são mostrados de acordo com os momentos rituais das respectivas religiões. Uma coisa é transversal: o Hierofante tem uma postura que é de autoridade ou de paternalismo. Há baralhos que o associam a palavras, como Tradição, Fé ou Reverência.
Este Arcano Maior está associado ao signo de Touro, conservador, realista, persistente. No entanto, o seu número 5 introduz movimento e tempo, depois da estabilidade do 4, podendo ser considerado um símbolo de destruição e mudança. Cinco são os elementos fundamentais da tradição chinesa (água, madeira, fogo, terra, metal). A letra hebraica que corresponde ao Hierofante é VAV, o gancho que conecta os pilares da criação. O seu título esotérico: “O Mestre Triunfante”.

Nesta semana que começa, é possível que sintamos um apelo interno para a reflexão sobre o sentido do nosso caminho. Provavelmente vamos tomar consciência de que temos reservado pouco tempo para as pequenas coisas que mais marcam, as que se fazem com prazer, para ter momentos felizes. Paradoxalmente, isto estará ligado ao respeito pelo nosso ser mais “sagrado”, que afinal é apenas o mais simples e verdadeiro.
Será um tempo de questionamento do nosso propósito na vida, sobretudo ao nível espiritual. E este conceito de espiritualidade pode viver-se, materializado em diferentes áreas: o domínio religioso, certamente, mas também o da criação ou usufruto artístico, o da meditação, o do encontro com a natureza, o do esforço físico direccionado, ou o do auto-conhecimento.
Que espaço damos para o sublime, para a beleza pura, no nosso dia a dia? Essa componente da nossa existência não pode ser esquecida ou menosprezada, porque ela é o alimento que nos torna resilientes perante o sofrimento.
Vamos ter Lua Nova a 19, um momento em que, ainda que inconscientemente, sentimos o novo ciclo a começar. Isto facilita este tipo de reflexão, que põe em perspectiva a forma como nos organizamos perante as nossas necessidades internas.
Vamos criar espaço para momentos de felicidade singela, no nosso dia a dia.

Imagem : The Alchemical Tarot Renewed, de Robert M. Place, 2007

Clara Days

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