Por Clara Days:

Palavras-chave: instinto; individualismo; independência; compulsão.

O Diabo não serve os outros. Caminha em frente, se necessário contra tudo e todos, conduzido por uma vontade que lhe vem do mais íntimo do seu ser e que lhe permite encarar as consequências dos seus actos sem medo. O instinto guia-o, ou melhor, o Diabo é a encarnação dos instintos, irracionais e poderosos, de que somos dotados para preservação da vida e continuidade da espécie. Ele está ligado ao lado material, físico, das nossas pessoas.
Lembremos: nesta semana o Sol entra em Escorpião, um signo que representa a sensibilidade irracional e subjacente, onde as emoções são fortes ou mesmo exacerbadas, onde a sexualidade se intensifica. Tudo isto se pode conjugar com a essência da energia do Diabo.
O Diabo é temerário, já o dissemos, na capacidade de assumir comportamentos arriscados e de o fazer sem apoios, por si e para si. Não espera reconhecimento social, não se sujeita a regras impostas de fora.
No Tarot ancestral, e até hoje em muito casos, este Arcano Maior representa o lado negativo de cada um de nós. Expressa o desejo de satisfazer paixões a qualquer preço, com toda a carga de transgressão e pecado que está associada a esta atitude.
É a partir de Crowley, no Livro de Thoth (elaborado nos finais da década de 1930), que a associação ao lado instintivo é valorizada como uma característica positiva. Considera este que os instintos básicos são quatro: de defesa, sexual, de preservação e gregário. Estão radicados na nossa herança genética para garantir a continuação da vida e da espécie.
Mas o prazer e a alegria podem ser vistos como companheiros do exercício consciente dos instintos. Bebemos água porque temos sede, e isso é prazeroso. Como o é também dormir depois dum esforço, ou comer um petisco saboroso. Sentimos prazer no acto sexual que se destina primariamente à reprodução.
Quando os nossos instintos são sistematicamente reprimidos, sublimados ou manipulados, entramos em estado de alienação. Podemos ficar escravos de padrões de comportamento colectivamente aceites mas que não se coadunam com a nossa essência. A criatividade individual é asfixiada, os medos tomam forma, surgem desvios de comportamento como compensação.
Outro problema é que o Diabo pode conduzir à compulsão para buscar prazer por via de comportamentos ou substâncias aditivos. Aí, a independência que o caracteriza torna-se dependência, e tem um efeito final auto-destrutivo, física ou emocionalmente.

As representações visuais colam-se ao imaginário tradicional sobre esta figura maléfica e pecaminosa, dando ao seu aspecto antropomórfico uma série de elementos de outros animais: chifres, patas de bode, cauda, asas de morcego, garras de ave de rapina, entre outros. A criatura que resulta é estranha e frequentemente ameaçadora ou assustadora. Em muitos baralhos, desde os mais ancestrais, está acompanhada de um par de humanos, homem e mulher, acorrentados entre si e / ou a ele, Diabo, ou ao seu trono. Serão pois seus servos ou escravos, dominados pela sua influência. O Diabo do baralho de Crowley, porém, é uma figura com cara de bode sorridente e acompanhada de elementos simbólicos de um poder terreno, mas não maléfico: o Caduceu (bastão com duas serpentes emplumadas), a Árvore da Vida com raízes em forma de testículos “povoados” por figuras humanas. Há ainda soluções gráficas em que aparece em combate com outras figuras monstruosas, que domina.
Capricórnio é o signo do zodíaco que lhe é associado, um signo de terra, pétreo, resistente. A letra hebraica que lhe corresponde é AYIN, o Olho, a fonte do carácter. O seu número reduzido, seis (1+5 = 6), é um número de perfeição, produto da união dos opostos. Mas sendo aqui também 3 X 5, está mais ligado ao plano humano, físico. O seu título esotérico: O Senhor das Portas da Matéria, filho das Forças do Tempo.

Para esta semana afigura-se provável o manifestar do nosso instinto. Estejamos atentos à sua mensagem, não a descartemos imediatamente, é uma mensagem que pode ser do corpo mas que se radica na nossa essência mais pura e verdadeira.
É um tempo para dar ao nosso corpo espaço para se exprimir, para saciar a sede de prazer físico. No entanto, é importante resistir aos apelos da busca de prazer pelo abuso no consumo de substâncias ou recurso a comportamentos aditivos.
Qualquer actividade que envolva o corpo ou o seu movimento pode ser benéfica, desde a caminhada à dança, desde a comida ao sexo. Vivamos com simplicidade a nossa alegria de estar vivos, corporizada em comportamentos e atitudes. Não é egoísmo, é preservação. O prazer não deve ser visto como um pecado, antes como evidência de um instinto que se exprime e resolve.
Potenciar o poder desinibidor e expansivo do Diabo, radicado na expressão genuína do nosso ser, é bom. Peguemos nesta dimensão do Arcano para vivermos melhor connosco.

Imagem : Tarot Clássico de Rocca e Gumpperberg – Itália, 1835

Clara Days

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