Por Clara Days:
Palavras-chase: instinto; independência; individualismo; compulsão.

Vem o Diabo e há um estremeção de receio. Fujamos disso, entendendo o seu verdadeiro papel como Arcano Maior.
O Tarot tradicional tinha intenções divinatórias, e a atribuição de características a cada carta era simplista e determinante. No entanto, nas abordagens mais profundas e recentes, a explicação das cartas passou de pretender a adivinhação para se centrar no auto-conhecimento, ajudando a iluminar a compreensão de nós próprios e da nossa relação com os outros e o mundo.
A sequência dos 22 Arcanos Maiores representa a viagem de cada um à procura de si mesmo. Eles são as cartas (ou lâminas) mais simbólicas do Tarot, expressão dos princípios organizadores do equilíbrio e organização do universo. Cada uma destas cartas alude a um estado de consciência específico, que vai desde a potencialidade absoluta do Louco até à universalidade da síntese final do Mundo ou Universo.
Em 15º lugar, temos o Diabo, primeira lâmina do terceiro septenário, aquele onde encontramos as etapas mais transpessoais, espirituais e transcendentes. O Arcano 15 representa então o primeiro nível, nessa fase do processo de auto-conhecimento. Porque é o momento primeiro dessa série, simboliza o impulso inicial na aproximação à transcendência, partindo de dentro para fora: o Diabo é o instinto, o lado mais primário de cada um de nós na relação com o Outro.
Nas leituras mais antigas, o Diabo era negativo, a personificação do mal, ligado às paixões mais primárias e potencialmente perversas. Eu sigo outra linha: vejo o Diabo na sequência da interpretação de Crowley e dos seus seguidores, representando os instintos (de preservação, sexual, de defesa, gregário) e o comportamento irracional e independente. Melhor definindo, o Diabo é libertário, porque no seu comportamento espontâneo e rebelde ele deixa sair o grito de independência mais radical: sem aceitar ordens, não deve, não teme, mas assume os riscos e as consequências.

Atentemos nas representações visuais: ele foi quase sempre um animal estranho, parcialmente humano, assustador e escravizador. Com chifres, asas de morcego, seios de mulher, patas de bode ou garras de águia, é decalcado da imagem cristã do demónio, uma espécie mistura ameaçadora de fauno e sátiro. É um ser anti-natural que mostra dominar, influenciar ou condicionar os humanos que o acompanham, acorrentados. Ora, estes elementos visuais de tradição cristã são ultrapassados em alguns baralhos pela representação dum Diabo ligado à natureza, expressão de uma irracionalidade benigna: ele surge como animal pacífico e frequentemente acompanhado de símbolos de iluminação espiritual, como asas, o Caduceu (bastão alado com duas serpentes enroladas sobre si), as uvas (imagem de alegria e abundância), os chifres de forma helicoidal (símbolo da força geradora), um terceiro olho de visão iluminada.
Astrologicamente, está associado a Capricórnio, signo cardinal de terra e, assim, simbólico de gestação. A letra hebraica que lhe corresponde é AYIN, o Olho, como fonte do carácter. O número 6, que soma 1+5 (15), é generalizadamente considerado um número de harmonia e equilíbrio. Os seus títulos esotéricos: “Senhor das Portas da Matéria” ou “Filho das Forças do Tempo”.

Passemos ao concreto: uma semana com a energia do Diabo desperta o nosso lado instintivo, animando comportamentos impulsivos que são essencialmente representativos da nossa essência mais natural. O Diabo não é bem educado e pode surgir desabrido ou desafiador, mas o seu intento é defensivo e protector da nossa integridade.
Uma semana com a energia do Diabo anima-nos a defender a nossa essência, a afirmar a vontade de sermos verdadeiros e não nos deixarmos guiar por desígnios alheios que atentem contra o nosso bem-estar íntimo e pessoal.
Podemos dominar este Diabo, dentro dos limites da boa educação e do civismo. Mas é importante que lhe demos atenção, pois ele fala em nosso favor. Pode ser inconveniente, incómodo, desagradável na forma de se exprimir, mas o que o motiva tem razão de ser e merece ser ouvido.
No fundo, o Diabo representa a capacidade de cada um de nós se respeitar e defender, num lugar que lhe seja hostil.

Clara Days

Imagem  : Tarot Clássico de Rocca e Gumpperberg – Itália, 1835

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