Por Clara Days:
Palavras-chave: Movimento; destino; oportunidade; ciclo.

Na semana em que acontece mais um solstício (de Inverno no hemisfério Norte e de Verão no hemisfério Sul), vem a Roda, símbolo do Princípio Universal do Movimento e da Expansão, lembrando que a vida é feita de ciclos que se sucedem e intercalam. Para a frente e para trás, para cima e para baixo, tudo evolui com maior ou menor grau de previsibilidade, mas garantindo que é em movimento que o equilíbrio se vai encontrando, mais ou menos estável, de forma circular ou em espiral, quando cada ciclo nos eleva a patamares superiores de realização ou consciência.
Curiosamente, foi esta mesma carta que surgiu para nos inspirar no recente equinócio, em Setembro, sendo que equinócios e solstícios são momentos únicos no ano solar, momentos especiais, de continuidade no caso dos primeiros e de inversão, no dos segundos. Nos equinócios, o tamanho dos dias e noites é igual em todo o planeta. Nos solstícios, o tamanho dos dias em relação às noites troca o seu sentido, de crescimento para redução, ou vice-versa.
Esta roda é da Fortuna, radicada no mito ancestral que se liga ao conceito de destino, com origem na deusa romana com esse nome que o governa, na boa ou má sorte e também na esperança. A Dama Fortuna mantém-se como referência na Idade Média e Renascimento europeus, representada como uma mulher, muitas vezes vendada, que faz girar a roda onde os poderosos sobem e depois descem, caindo em desgraça. Pode designar-se também como Roda da Vida ou do Destino.
O símbolo da roda existe nos mais diversos credos e referências culturais, pelo mundo fora – a roda do Karma, a Roda da Lei que Buda faz girar, a roda das reencarnações, as rodas de cura dos índios norte-americanos, e por aí fora.
Somos então inspirados para reflectir no modo como a nossa vida evolui, com momentos altos e baixos, mas sempre com a possibilidade de a situação se inverter, o que acarreta a necessária dose de conformação e esperança, para nos animar a prosseguir. A vida precisa de permanente mudança e é em ciclos que se desenrola.

As imagens das cartas estão radicadas na iconografia cristã medieval e renascentista da roda que gira, sendo que as personagens que são transportadas nesse movimento podem ser humanas, mitológicas ou animalescas. A mulher que a faz girar surge mais nos baralhos ancestrais, sendo que nos mais recentes apenas roda é o elemento central, com as respectivas personagens. Por vezes, a grande roda está apoiada sobre os ombros de um homem, curvado ao seu peso. É frequente a presença dos quatro representantes dos elementos primordiais: touro, leão, águia e anjo, geralmente colocado cada um em seu canto da carta. Estes simbolizam, também, as funções psicológicas, respectivamente: sensação (touro – terra, discos), emoção (leão – fogo, bastões), intuição (águia – água, copas) e pensamento (anjo – ar, espadas).
Em baralhos contemporâneos, a Roda descola da iconografia de raiz cristã e socorre-se frequentemente de outras simbologias, de acordo com diferentes inspirações espirituais ou filosóficas.
Astrologicamente, a Roda da Fortuna está associada a Júpiter, o planeta da expansão e da benevolência. A letra hebraica que lhe corresponde é KAPH ou KAF, o poder para actualizar o potencial. O número 10 pode ser reduzido a 1, mas é mais significativo como estruturante das bases de explicação do Universo para os pitagóricos e os cabalistas. O título esotérico atribuído a este arcano maior: “O Senhor das Forças da Vida”.

Este solstício está associado a múltiplas festividades, religiosas e pagãs. Antecede também a passagem de ano, um momento a que geralmente atribuímos um significado de mudança. É pois natural que, nesta época, comecemos a fazer um balanço da evolução da nossa vida, medindo sucessos e fracassos e tentando tomar decisões para o futuro. Tudo isto se coaduna com a mensagem da Roda da Fortuna.
Inspiremo-nos em Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”.
É tempo de nos questionarmos: o que nos prende ao passado? É bom ou mau, para nós? O que nos impede de mudar no futuro? O que queremos mudar? O que devemos mudar?
Todos temos o poder, em alguma medida, de influenciar o nosso destino. Assumamos essa responsabilidade, de mãos dadas com a esperança. Já sabemos, como diz o ditado, que ela será sempre a última a morrer.

Imagem – Tarot Visconti de Brera-Brambilla – Bonifacio Bembo (1442-45)

Clara Days

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