Por Clara Days: 

Palavras-chave: interiorização; auto-conhecimento; resguardo; busca.

Numa abordagem retrospectiva destas minhas cartas da semana, verifico que o Eremita nos tem inspirado, com visitas regulares, a intervalos de mais ou menos 3 meses, desde há cerca de um ano para cá. Sabendo que ele corresponde ao Princípio da Introspecção, é como se, periodicamente, nos proponha um momento de concentração no nosso Eu interior, em busca do auto-conhecimento.
Com o Eremita vem uma necessidade de isolamento, de reflexão, de busca de caminho. Não é um processo convulso ou complexo, mais parece um tempo de sono e de sonho, onde as verdades mais profundas que guardamos vêm à superfície, para que delas tomemos consciência.
O Eremita escolhe a solidão do seu percurso porque ela é indispensável ao seu processo de busca. Enfrenta a escuridão com a luz da sua lanterna, uma estrela-guia pequenina, à escala humana. Percorre o seu caminho com a ampulheta do Tempo, não porque tenha pressa, antes pelo contrário: porque precisa de tempo para poder encontrar o que procura. Apoia-se num bordão que o liga à terra, ao concreto, enquanto a lanterna procura iluminar o seu percurso espiritual, passo a passo. Caminhando, encontra o seu caminho.
É um peregrino em busca de si próprio. “Conhece-te a Ti mesmo e conhecerás todo o universo e os deuses” – esta frase, inscrita no templo de Delfos e difundida por Sócrates, perdura até hoje no discurso cultural e é a que melhor define a intenção e as propostas do Arcano Maior 9 do Tarot.
Trata-se do reconhecimento de que, se o conhecimento que procuramos não o acharmos primeiro dentro de nós, não o encontraremos em lugar algum. O Eremita é um peregrino em busca de si próprio, para encontrar compreensão e poder abrir-se ao conhecimento.

As imagens das cartas são bastante consensuais e reportam-se à figura de um velho peregrino encapuçado, apoiado no seu bordão, que empunha um de dois objectos: uma lanterna ou uma ampulheta. Não se vêem personagens humanas a acompanhá-lo, mas pode haver a representação de animais mitológicos ou silvestres, sendo o mocho, símbolo de sabedoria, um dos mais frequentes. O Eremita caminha em lugares desabitados, geralmente espaços naturais e mais frequentemente de noite. A lanterna pode ser um sol ou conter uma estrela de seis pontas, como figuração de luz, sendo ambos elemento ancestrais com significados de protecção e poder, em diferentes culturas.
Astrologicamente, o Eremita está associado ao planeta Virgem, mutante de terra, simbólico do tempo de colheitas e caracterizado por qualidades de análise, atenção ao detalhe e sentido de organização. A letra hebraica que lhe corresponde é YOD ou YUD, a mão. Título esotérico para este Arcano: “O Profeta do Eterno” ou “O Mago da Voz do Poder”. O número 9 tem significados simbólicos importantes em diferentes culturas e sistemas de interpretação – nove são as musas gregas, que inspiram, no seu conjunto, a totalidade do conhecimento…

Paremos para reflectir. Não adianta avançarmos para caminhos ousados sem nos darmos um tempo de auto-análise.
Foquemo-nos em nós, não numa atitude de egocentrismo mas antes em introspecção. Se estamos em sofrimento, precisamos de compreender a sua origem, para conseguir ultrapassá-lo.
Temos, na nossa vida interior, lugares que precisam de iluminação, sem juízos ou preconceitos. A intenção não é de punição ou penitência, mas de compreensão. Quando formos capazes de compreender as nossas motivações íntimas e as origens dos nossos receios, teremos a chave para desmontar os mecanismos internos que nos bloqueiam.
Mas nada disto é trabalho que se faça numa semana. A vinda periódica do velho e sábio Eremita é um alerta para que mantenhamos abertos os canais que nos ligam às nossas inquietações e anseios mais íntimos e pessoais. Precisamos de nos conhecer bem, para enfrentarmos o mundo de peito aberto e apostados em seguir para um lugar melhor.
Que cada um de nós seja o melhor amigo de si próprio, é o que desejo.

Imagem 2 – Victorian Romantic Tarot, de Karen Mahony e Alex Ukolov (2006)

Clara Days

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