Por Clara Days:
Palavras-chave: objectividade; imparcialidade; causa e efeito; reajuste.

Após o percurso interior que na semana passada nos foi proposto pelo Eremita (arcano 9), hoje é-nos pedido que procuremos o equilíbrio, com a carta da Justiça, ou Ajustamento (arcano 8). Inverte o sentido da ideia de jornada implícita na sequência dos Arcanos Maiores, retrocedendo um passo. Enquanto que, nesse percurso, se presume que a busca de equilíbrio precede o tempo de auto-conhecimento, aqui aparece como se o virarmo-nos para dentro em busca de nós próprios nos permita agora concentrar-nos melhor no equilíbrio que devemos encontrar.
A dupla numeração não deve ser problema: este Arcano Maior sempre foi considerado o 8º, mas no Tarot de Rider-Waite assumiu o nº 11 (trocando com a Força), por este ser um número mais simétrico e “equilibrado”. Quanto à dupla designação, digamos que se trata de simbolismos dentro da mesma categoria, sendo que a Justiça alude a algo mais externo que pode ser imposto, enquanto que o Ajustamento apela a uma adaptação à realidade exterior.
Analizemos o significado da carta: a primeira ideia que nos ocorre, ao falar de Justiça, é a de imparcialidade. Trata-se da capacidade de reduzir ao máximo a influência das nossas emoções e preconceitos, na apreciação dos acontecimentos. É um exercício interior de afastamento e busca de neutralidade, em que sejamos capazes de ser o mais objectivos possível na apreciação do que se passa, valorizando os diferentes aspectos em causa sem evitar algum, nem aumentar ou reduzir a importância de cada um.
A ideia de Ajustamento, por seu lado, pede-nos que essa neutralidade de olhar se aplique às circunstâncias e acontecimentos que vivemos, para que sejamos capazes de os aceitar e, em consequência, de modificarmos o quanto baste o nosso comportamento para a eles nos ajustarmos. Há aqui uma inter-relação mais explícita.
Este Arcano Maior baseia-se na busca de compreensão das forças que interagem e se equilibram no Universo, transportadas para a escala humana. Trata-se de um equilíbrio dinâmico, explicado pelas leis da Física, que para se manter exige pequenas mudanças e ajustes, desconstruindo ou reconstruindo, em permanente reorganização.
A Justiça, ou Ajustamento, lembra-nos a relação causa-efeito e pede que procuremos ser conscientes e comedidos nos nossos pensamentos e actos, aceitando e gerindo as suas consequências, sem manipularmos a nossa relação com a realidade.

As imagens das cartas são bastante consistentes e recorrem à simbologia da tradição ocidental, na representação de Justiça: uma mulher, empunhando balança e espada, procura ser equilibrada nas decisões, para as executar sem hesitação, em seguida. A diferença é que a Justiça tradicional tem os olhos vendados, como representação da sua neutralidade,enquanto que, no Tarot, é-nos geralmente apresentada de olhos bem abertos, plenamente consciente do processo e também do efeito das suas decisões. A personagem pode surgir antes como um ser alado, angelical, o que lhe permite estar mais elevada em relação à dimensão humana / parcial da visão dos acontecimentos.
Este Arcano Maior é associado astrologicamente ao signo de Balança, simbólico do equilíbrio e da harmonia. O número 8 representa, na numerologia pitagórica, sabedoria e liderança. A letra hebraica que lhe está associada é LAMED, a aspiração ou contemplação pelo coração. Título esotérico da carta: A Filha dos Senhores da Verdade ou o Controlador da Balança.

Na semana que hoje começa somos desafiados a analisar a nossa realidade de um modo sistemático e tendencialmente neutro. Controlemos a emoção, desanuviemos o nosso olhar do peso dos preconceitos, das ideias feitas. O que vemos, realmente? Sem máscaras, nem desculpas, onde estamos, no nosso percurso pessoal?
É proibido fazer batota: as coisas são como são e não há como dar-lhes a volta. Tomemos consciência plena disso e demos então a volta à nossa própria posição, se necessário: o que podemos mudar em nós, para intervir na realidade e melhorar as nossas circunstâncias perante ela?
Apenas temos capacidade de modificar o que está ao nosso alcance, não podemos manipular nem distorcer as evidências. Tomemos as nossas decisões com ponderação, assumindo as restrições e apostando em soluções viáveis. Sejamos honestos e disponíveis para fazer o necessário e ajustemo-nos, no sentido de um equilíbrio maior, de mais harmonia.
Aceitemos em plenitude as circunstâncias concretas da nossa realidade, para lidarmos com elas. Só a partir daí podemos partir para o ajustamento e aproximar-nos mais da harmonia.

Imagem: Tarot Antiche Minchiate de Etruria (1725)

Clara Days

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