Por Clara Days:
Palavras-chave: auto-conhecimento; introspecção; retiro; peregrinação.

Na semana em que teremos um novo Equinócio, que anuncia a Primavera no Hemisfério Norte e o Outono no Sul, vem o Eremita, velho peregrino do Tempo, lembrar-nos a importância do auto-conhecimento e pedir que sejamos concentrados e pacientes.
Ele retira-nos do palco da vida, para nos levar para os bastidores, onde a luz não é intensa e o que acontece fica sempre resguardado. Pede-nos silêncio e paciência, para o exercício do auto-conhecimento.
A viagem do Eremita é sem bússola nem GPS, tacteando o caminho a pouco e pouco, apenas sabendo o lugar para onde se dirige o próximo passo. No entanto, passo a passo, ele vai longe. Solitário, ele guia. A pequena luz que transporta eleva-se para mostrar o que tem estado escondido, sem forçar, sem encandear. O percurso é mostrado nos seus detalhes, uma pequena peça de cada vez, para encontrar um sentido maior. Para o Eremita, a questão não é conhecer o Todo, mas fazer o Caminho, desvendando os medos, encontrando os anseios, pacificando remorsos ou dúvidas. O movimento é lento, pausado, mais sereno do que destemido.
A verdade, para o Eremita, é um somatório de pequenas descobertas. Aqui, o processo de busca valoriza cada uma delas. Em cada momento, ele fixa-se numa parcela, e assim vai desatando, pacientemente, os nós que trazemos dentro e em que tropeçamos sem remédio, quando andamos virados para fora e distraídos com o mundo em redor. A verdade é o auto-conhecimento, como base fundamental que possa permitir que, no fim de cada etapa desta viagem interior, nos sintamos mais fortes, mais confiantes, com a auto-estima reforçada.

Este Velho Peregrino, arcano maior número nove, tem capuz e bordão, nos desenhos das cartas. Surge recorrentemente associado ao Inverno, estação de que agora nos despedimos, no Hemisfério Norte. Transporta na mão um de dois objectos simbólicos: a lanterna que ilumina, ou a ampulheta que representa e pauta o tempo. Desloca-se em lugares mais ou menos escuros ou inóspitos, sem companhia humana, podendo no entanto estar junto de animais silvestres – lobo, veado, serpente, ave de rapina… Pode também ser acompanhado por animais mitológicos (como Cérbero, o cão de três cabeças, que na mitologia grega guarda a porta das profundezas do “mundo inferior”). Baralhos mais alternativos associam-no a uma tartaruga ou a um caracol, animais que transportam o seu próprio esconderijo e nele se protegem, quando necessário.
Este Eremita está astrologicamente associado a Virgem, signo mutante, de fim de estação, simétrico ao signo de Peixes, de onde esta semana o Sol sai, para iniciar um novo ciclo anual do zodíaco. O número 9 simboliza poder, esforço, conclusão e, ao mesmo tempo, reflecte eternidade. A letra hebraica que corresponde a este Arcano Maior é YOD ou YUD, a mão. O seu título esotérico: “O profeta do Eterno” ou “O Mago da voz do Poder”.

Desaceleremos, retiremo-nos um pouco da lufa-lufa do dia-a-dia. A energia do Eremita ajuda-nos nessa tarefa, propondo calma, silêncio e tempo para introspecção. Não é um tempo de questionamento, antes de compreensão. Temos a pequena luz para iluminar os recantos da nossa alma, os lugares escondidos onde guardamos memórias dolorosas, medos primitivos, desejos reprimidos. Visitemos cada um desses lugares, com o olhar do conhecimento, com a luz do Eremita. Olhemos para nós como se de outra pessoa se tratasse, sem juízos de valor nem emoções exacerbadas a turvar essa demanda.
Temos o dever de nos conhecermos melhor, temos o direito de nos amarmos como somos, com a bagagem de vida que transportamos. É para isso que vale a pena a introspecção. Não procuramos desculpas nem justificações, antes compreender. Por trás de cada elemento mais dorido da nossa personalidade há memórias, acontecimentos, situações que nos influenciaram algures, no caminho. Dessas “feridas da vida” fica a cicatriz e o receio de lhes tocar, por medo de voltar a sentir dor. Olhemos cada ponto doloroso do nosso ser interior com olhar clínico e intenção curativa, não para deitar sal nas feridas.
Só se pode mudar aquilo que se reconhece. O Eremita ajuda-nos a reconhecer os sinais do tempo no nosso mundo interior, para pacientemente nos ajudar a recuperar. Depois, virá a mudança.

Imagem : Antigo Tarot da Lombardia (ou Tarot Neoclássico) de Ferdinando Gumppenberg (1810)

Clara Days:

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