Por  Clara Days:
Palavras-chave: responsabilidade; decisão; objectividade; equilíbrio.

A carta da Justiça, que Crowley preferiu designar como Ajustamento, representa o equilíbrio cósmico, dinâmico e em permanente reajuste. É maioritariamente considerada como o Arcano Maior nº 8, mas no baralho de Rider-Waite é-lhe atribuído o 11, por troca com a carta da Força.
A busca do equilíbrio é um esforço que exige a capacidade de  entender contrastes e complementaridades como energias que se podem contrabalançar, não se destruindo entre si. Para manter o equilíbrio, explicam-nos as leis da Física, há forças em permanente interacção. Assim aqui, com o Arcano Maior 8.
Na interpretação mais simples da carta, consideremo-la como símbolo da imparcialidade, permitindo a análise dos acontecimentos e relações de modo autónomo e que visa intervir como uma mediação construtiva, perante os conflitos. O objectivo é encontrar o consenso e a concórdia, mesmo que isso implique tomar decisões mais interventivas ou impopulares. Mas a capacidade de se ser imparcial exige uma grande objectividade, com o necessário distanciamento emocional, e estas duas componentes são desafios à nossa natureza humana. A maior parte das decisões da nossa vida têm a ver com uma componente pessoal em relação à qual não é fácil racionalizar desapaixonadamente – é esse o desafio da Justiça.
Mas olhemos por outro prisma, o do Ajustamento. Aí, novamente nos é pedida uma visão realista dos acontecimentos em que nos enquadramos, olhados com a necessária distância e possível imparcialidade. Mas o objectivo, nesta acepção, não é atenuar conflitos, antes o sermos capazes de aceitar a realidade e de nos ajustarmos a ela, só que de um modo que não violente nem comprometa quem somos, na nossa essência. Novamente se trata de um exercício racional, provavelmente mais ao alcance de cada um. Na maioria das situações, refere-se ao esforço mental de compreender e aceitar o curso dos acontecimentos e tomar decisões realistas e construtivas, dentro das condicionantes existentes.

Nas representações visuais, há geralmente três elementos: uma mulher, uma balança e uma espada. A mulher segura ambos os objectos, cada um com sua mão, sendo que os pratos da balança podem estar representados em diferentes pontos de equilíbrio. Ora, tudo isto se aproxima da representação tradicional da lei e da justiça, na sociedade ocidental, mas com uma diferença: no Tarot, a mulher costuma estar de olhos abertos, consciente, senhora dos acontecimentos. Sentada num trono, muitas vezes coroada, ou apresentada como ser alado, pode olhar de frente, como se nos interpelasse. Há no entanto algumas situações em que surge de olhos fechados ou vendada. É também frequente estar acompanhada de símbolos ou animais de poder.
Astrologicamente, a Justiça está associada ao signo de Balança, racional, porque é de Ar, mas regido por Vénus, que procura o amor e a concórdia. A letra hebraica que lhe está associada é LAMED, a aspiração ou contemplação pelo coração. Se considerarmos a carta como o nº 8, este representa o equilíbrio cósmico; se considerarmos o 11, é um número-mestre, que não pode ser reduzido. Título esotérico da cara: A Filha dos Senhores da Verdade ou o Controlador da Balança.

Para esta semana, somos desafiados a olhar com objectividade a nossa vida e procurarmos ser imparciais na avaliação dos acontecimentos que nos rodeiam. Onde nos posicionamos, como nos inserimos nessa realidade? Procuremos ser justos: há certamente alguma coisa que está ao nosso alcance modificar para nos sentirmos melhor, mais de acordo com os nossos valores e princípios, ou mais capazes de progredir. Mas temos de ser realistas.
Distanciemo-nos, tanto quanto possível, das emoções que nos enviesam a visão do nosso enquadramento. Olhemos para a nossa vida como se de outra pessoa se tratasse, para sermos mais justos para connosco, sem desculpas nem juízos de valor. Foquemo-nos em encontrar o que está ao nosso alcance fazer, sem deixarmos que as recriminações ou os desejos impossíveis contaminem as nossas decisões ou nos bloqueiem.
Mas façamos este exercício com determinação e optimismo. Tudo pode ser analisado por um ângulo diferente, há sempre qualquer coisa nova que pode ser tentada. O Ajustamento inspira-nos para tomar decisões mais acertadas. Não percamos esta oportunidade.

Imagem : Tarot de Visconti Sforza (séc. XV)

 

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