Por Clara Days:
Palavras-chave: afirmação; vontade; renovação; desapego.

Nesta semana teremos a Lua Cheia em Sagitário, a Lua da Flor, como é designada, sendo a última da Primavera no hemisfério Norte. Vem o Carro, Arcano Maior 7, inspirar-nos para que sejamos capazes de avançar na vida, deixando para trás aquilo que nos tem prendido e que já não faz sentido.
O Carro representa o Princípio do Desapego, esse movimento corajoso que nos impele a largar amarras e arriscar uma nova viagem, ainda que não tenhamos bússola para nos orientar. É uma decisão solitária e definitiva. Na verdade, esta partida que aqui se propõe tem sobretudo a ver com o que tem de ser largado e não tanto com uma meta muito clara no futuro. Marca o arranque de uma aventura pessoal.
O condutor que segura as rédeas tem a força da determinação do seu lado. Armado, em pose real, olha em frente e procura orientar os animais que domina para seguirem na direcção escolhida. Para trás ficou o que já foi a sua zona de conforto, mas para onde agora já não há qualquer desejo de voltar. O que foi cumpriu-se, cortaram-se os laços, agora interessa o que será.
O condutor vai em modo de guerreiro, alerta e até protegido com armadura, se necessário. Simbolicamente, refere-se essa protecção à “carapaça” que criamos para defender o nosso lado vulnerável e sensível, quando a vida nos foi amarga. É uma nova forma de zona de conforto, que nos confina a nós próprios e nos faz não confiar nas influências ou chamamentos vindos do exterior, vindos de quem for. Na realidade, não é uma zona de grande conforto, antes um refúgio, mais mau do que bom, mas como convencer disso um coração magoado?

As imagens das cartas mostram a carroça ou carro de combate a cavalo, o condutor mais ou menos armado, mais ou menos adornado com elementos simbólicos de realeza, e as bestas que puxam o veículo. Estas podem ser cavalos ou outros, podem ser animais mitológicos, mas costumam ter em comum o ser cada um de sua cor, ou olhar cada um em sua direcção. Portanto, na maioria das cartas temos um guerreiro que segue no seu carro, segurando as rédeas ou conduzindo animais que parecem não querer ir na direcção que ele determina. Só que há na força da pose, na frieza do olhar, no peso da armadura do guerreiro uma afirmação de vontade, o que nos faz crer que o carro seguirá na direcção do seu comando, implacavelmente.
Esta carta de afirmação pessoal está astrologicamente associado a Caranguejo, signo de água regido pela Lua. Lembra-me a frase de um saudoso amigo, que me dizia ser o Caranguejo um bichinho sensível, escondido dentro de uma carapaça dura. A letra hebraica que lhe corresponde é CHETH ou CHET, a dinâmica do partir e regressar. Na numerologia pitagórica, o 7 é um numero de grande espiritualidade, um número de perfeição. Título esotérico do arcano: “O Senhor do Triunfo da Luz”.

Espera-nos então uma semana em que seremos inspirados para conseguir largar o que já não faz sentido na nossa vida. Ainda que seja apenas mentalmente, é-nos proposto que nos desapeguemos de vínculos, posições ou objectos que já foram importantes para nós mas que agora sentimos que nos fazem mal.
Há que ser capaz de deixar para trás e seguir em frente, mas sobretudo conseguir fazer este movimento sem remorso nem hesitação. O Carro diz que já estamos no ponto em que nos é possível um corte mais radical, que podemos seguir o impulso de ir para um novo lugar, seja ele qual for, seja físico ou metafórico.
Cuidado, no entanto: não nos fechemos numa carapaça inviolável, não cortemos o nosso contacto sensível com o exterior e os outros. Há quem nos queira bem, há quem nos possa ajudar, seria bom que para esses as pontes continuassem de pé.
Temos determinação, temos vontade, mas não devemos oprimir a sensibilidade.

Imagem: Tarot Neoclássico ou da Lombardia, de Ferdinando Gumppenberg (1810)

Clara Days

Anúncios