Palavras-chave: ideologia; pertença; crença; busca espiritual.

O Hierofante representa o Princípio da Transcendência Espiritual. É o Mestre Iluminado que ajuda a encontrar harmonia com a divindade interna de cada um.


Tradicionalmente, era o Papa, guardião da fé e da moral, o que ditava leis espirituais e regia a vida colectiva na esfera dos costumes e dos comportamentos. A mudança recente para Hierofante pretende descolar este Arcano Maior do catolicismo e remete-nos à figura do grande sacerdote que presidia ao culto de Elêusis, na Grécia clássica. Na designação original, Hierophantes (em grego antigo εροφάντης) significa literalmente “aquele que explica as coisas sagradas”.
É comum interpretar-se esta Arcano Maior como o da conformidade, da pertença a um grupo de partilha cultural ou espiritual. Mas a sua caracterização depende da forma como encaramos a personagem: como modelo, ou como sujeito. Como modelo, será o guia, o conselheiro, aquele que orienta e dá a regra, oferecendo autoridade e protecção. Como sujeito, é o estudioso que não se limita a seguir a tradição, antes pesquisa e assume uma postura de busca individual das verdades e das metas espirituais. Reconheço na carta estas duas explicações, de acordo com o contexto em que ela surge.
Hoje, na inspiração para a semana que começa, vamos centrar-nos no Hierofante como sujeito, representando em cada um de nós a busca da sua verdadeira identidade ideológica. É aquele que, em liberdade, faz o esforço de aprofundar e estudar, para encontrar e exprimir a sua voz autêntica e a sua vontade, na escolha do caminho ético por onde seguir. Vai ao fundo de si mesmo, questiona-se, compara-se, para se assumir publicamente e seguir viagem em direcção a um propósito, um ideal em que acredita profundamente. Com este Hierofante, procuramos o caminho da iluminação pessoal.

As representações visuais do Arcano Maior 5 giram em torno de figuras de hierarquia religiosa, variando nos baralhos de hoje em dia nas culturas ou religiões aludidas. Na maioria dos baralhos, a influência do aspecto visual do Papa católico predomina. Usa manto, tem numa das mãos um bastão ou báculo (com aparência de chave no topo), enquanto que com a outra faz sinal de abençoar. Também a coroa ou chapéu ritual, o trono, a pose lhe emprestam uma aparência de autoridade e poder. Por vezes tem na mão, ou junto a si, uma chave, a dos segredos sagrados, ou o livro que guarda a palavra da sua crença. Pode surgir acompanhado por seguidores, representados como figuras mais pequenas ou apenas parcialmente representadas, que olham para ele ou lhe seguem a direcção do olhar; pode ainda abençoá-los directamente. Alguns baralhos associam-no a palavras, como Tradição, Fé, Revelação ou Reverência. Por vezes surgem representados os animais de poder, ou querubins, correspondentes aos elementos primordiais (touro, leão, águia, anjo); também a estrela de cinco pontas, ou velas acesas, surgem como símbolos de iluminação.
Astrologicamente, o Hierofante está associado ao signo de Touro, de Terra, prático, utilitário. A letra hebraica que lhe corresponde é VAV, o gancho que conecta os pilares da criação. O número 5 representa, na numerologia comum, liberdade e curiosidade, enquanto que a numerologia cabalística o associa a autoridade e benevolência. Título esotérico da carta: “O Mestre Triunfante”.

Somos hoje interpelados no sentido de sermos capazes de procurar em nós as verdades mais profundas, a vontade autêntica, os valores e crenças que nos possam dar o impulso para perseguir uma ideia ou definir um destino. Tudo deve começar por dentro, mas só se cumpre se sair para fora.
Todos temos, no nosso mais íntimo ser, dimensões de elevação espiritual a que podemos recorrer. O superficial está fora de questão. Mas, para que um propósito de elevação seja encontrado, é preciso que assumamos o compromisso de sermos fieis a nós próprios, em liberdade, seja o que for possa rodear-nos. Liberdade e independência são condições para este encontro de desígnio.
Nesta semana somos inspirados para encontrar o lado divino que temos dentro, ouvi-lo e transportá-lo para o nosso projecto de vida. Assim poderemos depois compartilhar, ou, quem sabe, ajudar outros a encontrar a sua direcção.

Imagem: Antigo Tarot da Lombardia ou Neoclássico de Ferdinando Gumppenberg (1810)

Clara Days

 

 

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