Por Clara Days:
Palavras-chave: introspecção; retiro; auto-conhecimento; jornada

Fechemos os olhos, respiremos fundo, procuremos o silêncio. Com a energia do Eremita, é tempo para a introspecção.
A vida actual está organizada e condicionada por uma tal velocidade de comunicação e sucessão de estímulos externos que nos acelera o pensamento e nos faz desaprender o valor inestimável do tempo que se vive sem pressa.

Mas a verdade é que vivemos em deficit de sono, de silêncio e de paz interior.
É a altura de desacelerar, de filtrar a sucessão externa dos acontecimentos e marcar encontro com as nossas raízes, as motivações, também com os medos e as dúvidas.
O Eremita lembra-nos a importância das aprendizagens que fazemos com calma, da busca interior de que todos precisamos, para nos aprendermos. “Conhece-te a ti mesmo”, mandamento socrático, é o lema. Não procuramos certezas, mas sim compreensão, no duplo sentido que é atribuído à palavra: o do conhecimento e o da tolerância.
É como se a vida nos peça que saiamos do palco para os bastidores, que nos afastemos das multidões e criemos espaço para estar de nós para connosco. Tudo o que é mundano e fútil perde importância, para dar espaço a este exercício de introspecção.
Se a Sacerdotisa, arcano 2, nos pede a meditação que pode conduzir à sabedoria, o Eremita, arcano 9, convida-nos a fazer um caminho interior onde é importante que cada pormenor, cada detalhe seja olhado com atenção e que sejam procuradas as causas, para encontrar respostas. É como uma peregrinação de entendimento, de estação em estação, que nos guie para a pacificação com o que sub-conscientemente nos afecta e condiciona.

As imagens das cartas mostram-nos um velho, geralmente vestido como monge andarilho, que empunha uma lanterna acesa. O espaço à sua volta é tendencialmente nocturno e a luz que ele transporta pouco ilumina. Há vários casos em que transporta antes uma ampulheta, símbolo da passagem do tempo. Quando se percebe o cenário, é geralmente austero, árido ou inóspito. Por vezes, esta personagem surge acompanhada por um animal, um lobo ou o mitológico Cérbero, o cão de 3 cabeças que na mitologia grega guarda a entrada do mundo “inferior”; baralhos mais eclécticos colocam-no junto de outros animais silvestres – veado, serpente, ave de rapina… Tem barbas brancas, apoia-se num bordão e assume, recorrentemente, a postura curvada de um idoso. O vestuário, com manto e capuz, cobre-o e resguarda-o – geralmente, apenas o rosto e as mãos aparecem bem visíveis. O bastão liga-o à terra, a lanterna ou a ampulheta ao espaço em volta.
Astrologicamente, o Eremita está associado ao signo de Virgem, terreno e meticuloso, da discriminação. A letra hebraica que lhe corresponde é YOD ou YUD, a mão. Na numerologia, o 9 representa a integridade e a sabedoria. Títulos esotérico para o Eremita: “O profeta do Eterno” ou “O Mago da voz do Poder”.

Entramos nesta semana inspirados para criar condições para a introspecção, talvez porque só assim poderemos deslindar os mecanismos internos que nos fazem sofrer. Certamente, um processo deste tipo não se faz numa semana; digamos então que, num tempo mais longo em que temos o dever de nos dar espaço para o auto-conhecimento, na semana que hoje entra essa necessidade pode ser mais óbvia ou premente.
O auto-conhecimento é o contrário da auto-defesa reactiva, em que geralmente procuramos as justificações, os responsáveis ou os culpados para uma situação. Na introspecção, não há culpa nem responsabilidade, antes a busca do enquadramento, das causas, das raízes que expliquem os nossos comportamentos e atitudes. Não raras vezes, se formos capazes de aprofundar, encontramos no nosso passado as situações mal resolvidas que deixaram uma amargura ou um receio, que acordam e nos fazem reagir de modo excessivo ou desadequado, quando algo parecido nos sucede no presente.
Esta semana é para nos darmos tempo. Tempo de qualidade, a sós, que nos permita o diálogo interior. A lanterna do Eremita ajuda-nos a iluminar zonas de sombra que nos têm condicionado a felicidade pessoal.
Fechemos os olhos, respiremos fundo, procuremos o silêncio. Com a energia do Eremita, é tempo para a introspecção.

Imagem : Tarot Della Rocca ou Soprafino (1835)
Clara Days