Por Clara Days:
Palavras-chave: determinação; independência; instinto; compulsão.

É o primeiro Arcano do terceiro septenário, que é superconsciente, transpessoal e transcendente. Neste conjunto de cartas trabalhamos a espiritualidade, vivendo a imersão na escuridão e resgatando a nossa própria luz. Sendo esta a primeira, corresponde ao impulso, dentro das características transversais às sete.


No Tarot de Osho Zen, a designação para a carta é “Os Condicionamentos”, no Tarot Egípcio “A Paixão”.
A referenciação da tradição europeia ao “Diabo” deve lembrar-nos que Lúcifer, que etimologicamente significa “o que traz a luz”, foi o arcanjo que decidiu não querer obedecer: “Non servam!”. Nesta tradição, a carta é mais frequentemente associada aos seus aspectos negativos do que a esta qualidade da independência rebelde, com assunção plena das consequências.
Assim, corresponde às compulsões incontroláveis, que podem partir dos instintos primários que nos garantem a preservação individual e da nossa espécie: instinto de sobrevivência, sexual, gregário… Nesta acepção, há conotações pecaminosas em tudo correspondentes aos valores da moral de tradição judaico-cristã. Particularmente, a conotação com a vida sexual é realçada. Por arrastamento, é também associado às diferentes dependências de substâncias e comportamentos aditivos. Há aqui implícito um conceito de Diabo prisioneiro ou aprisionador, como vítima das suas compulsões.
Mas eu prefiro falar do Diabo independente e aguerrido, que não baixa a cabeça e não se deixa influenciar pelas conveniências, costumes ou opiniões alheias. É uma personagem que aceita correr riscos em prol da afirmação da sua vontade, o que não implica que prejudique terceiros. Com efeito, ele segue um caminho solitário e assume os seus actos aceitando plenamente as respectivas consequências, sejam quais forem.

Nas representações das cartas, apareceu foi sempre como uma criatura estranha, apenas parcialmente humana, de atitude e feições assustadoras. Pode apresentar-se com chifres, asas de morcego, seios de mulher, patas de bode, assim decalcado da iconografia cristã do demónio, uma espécie mistura ameaçadora de fauno e sátiro. Trata-se então de um ser anti-natural que mostra dominar, influenciar ou condicionar os humanos que o acompanham, geralmente um casal, a ele acorrentados. Esta iconografia de tradição cristã tem sido por vezes ultrapassada, com a representação dum Diabo mais ligado à natureza, expressão de uma irracionalidade benigna: surge como Pan, divindade silvestre, ou como animal de aspecto pacífico e chega a ser acompanhado de símbolos de iluminação espiritual, como asas, o Caduceu (bastão alado com duas serpentes enroladas sobre si), uvas, ou os chifres de forma helicoidal (símbolo da força geradora).
O Diabo corresponde astrologicamente a Capricórnio, signo cardinal de terra, pétreo e resistente. A letra hebraica que lhe corresponde é AYIN, o Olho, como fonte do carácter. O seu número 15 corresponde à ideia de magnetismo pessoal. Títulos esotéricos deste Arcano: “Senhor das Portas da Matéria” ou “Filho das Forças do Tempo”.

Com a inspiração da energia do Diabo, o nosso instinto vai provavelmente ter necessidade de se exprimir, por estes dias. Vai levar-nos a procurar um caminho mais livre e natural, onde mostramos quem verdadeiramente somos.
Seguir os impulsos naturais pode ser socialmente problemático, mas pode também ser profundamente libertador. Exprimir a nossa vontade, sem filtros nem auto-censura, pode levar-nos para caminhos onde teremos que responder sozinhos pelos nossos actos. Valerá a pena? Cada um tem a sua resposta.
É um tempo em que os medos sossegam e surge a vontade de afirmação, como se nos seja possível desbloquear o que nos tenha travado. Pode ser tempo de dizer verdades escondidas, de arriscar no amor, de soltar amarras. Pode ser que nos traga dissabores. Quem quer correr o risco?

Imagem: Aquarian Tarot, David Paladini, 1970

Clara Days

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