Palavras-chave: solidão; introspecção; busca; orientação

Não há como fugir-lhe: a viagem que o Eremita nos propõe precisa de ser continuada.
Faço aqui um parêntesis para explicar aos meus leitores que, todas as semanas, procuro ter a confirmação de que o Arcano Maior que nos vai inspirar é a carta certa. Uso dois baralhos, faço-o em momentos diferentes. Quando uma carta surge repetida, pouco tempo depois de já ter saído, sou mais cuidadosa nessa confirmação. Pois, hoje, quatro vezes veio o Eremita, confirmando-se como a energia para a próxima semana. Por isso, volto a afirmar: não há como fugir-lhe.
Fui então procurar novos referentes, novas abordagens para este Arcano que representa o Princípio da Introspecção. Tenho associado o seu significado ao princípio socrático “Conhece-te a si mesmo”, e não me afasto dessa interpretação. Mas há autores que o associam também a Diógenes, na sua busca pelo “homem honesto”, por transportar na mão uma lanterna e tentar com ela iluminar o que o rodeia.
Diógenes, “o Cínico”, foi um filósofo da Grécia Antiga, pupilo de um pupilo de Sócrates. Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude. É recordado pelo seu estilo de vida e atitudes provocatórias, sendo famosa a história de que saía em plena luz do dia com uma lamparina acesa, procurando por homens verdadeiros, honestos (ou seja, homens auto-suficientes e virtuosos).
A partir do seu modo de vida despojado e negligente, recentemente, a Psicologia usa o nome de Diógenes aplicado a um distúrbio comportamental caracterizado por autonegligência involuntária e acumulação de objectos. Mas, para nós, aqui, a simbologia da lanterna é o que queremos realçar. Nesta acepção, podemos ver o Eremita, não apenas como procurando um entendimento de si, mas também como alguém que busca, fora de si, o reflexo dos valores que lhe são mais caros.
Será apenas para si que o Eremita ergue a sua lanterna, ponto de luz que revela pouco do que está à frente, mas serve de referência para quem está de fora? Procurará também iluminar outros, ou trazer luz para esses outros, para que o possam seguir?
Esta perspectiva alarga a mensagem que está associada ao Arcano Maior 9. Ele passaria então a ser, pelo exemplo certamente, pois que o sabemos solitário e pouco social, o sábio guia, o guru, aquele que procura a sua verdade, mas também aproximar-se das verdades mais elevadas: um mestre iluminado discreto, que podemos seguir.

Este Eremita surge-nos representado com imagens que em pouco diferem de muitas iluminuras e outras ilustrações medievais – o frade mendicante que segue solitário, no deserto inóspito ou em cenário sombrio, apoiado no bordão. Mas leva, na mão, a lanterna, cuja luz é frequentemente representada como estrela. No Tarot designado como Gringonneur ou Charles VI (séc. XV) transporta, antes, uma ampulheta – e assim influencia outras representações que se lhe seguiram. Iluminando o espaço, ou controlando o tempo, ele é o solitário que só aceita, nas imagens do Tarot, a companhia dos animais, sobretudo os animais silvestres. Podemos ver nele o retrato de S. Francisco de Assis, o nobre que de tudo se despojou e que falou dos outros seres vivos como seus irmãos. Podemos vê-lo transformado, na iconografia dos baralhos recentes, noutras metáforas representativas: um estudioso, um animal.
O Eremita está astrologicamente associado ao signo de Virgem, mutante – logo flexível, transformável – e de terra – ligado ao concreto e a cada detalhe. A letra hebraica que lhe corresponde é YOD ou YUD, a mão. O número 9 é o da compaixão e da universalidade. Título esotérico deste Arcano Maior: “O profeta do Eterno” ou “O Mago da voz do Poder”.

Que luz é a luz que nos ilumina por dentro? Onde nasce? Da nossa vontade, do nosso desejo, ou da nossa verdade mais íntima e despojada? Como a acendemos?
O que queremos iluminar, quando erguemos a lanterna do Eremita? O nosso caminho ou um caminho que podemos indicar? Ou ambos?
Muitas as perguntas, pouco óbvias as respostas.
O Eremita continua a pedir que façamos silêncio para ouvir a voz de dentro, que procuremos a solidão para ver melhor o que se passa dentro – e fora. Com ele a inspirar-nos, somos participantes ou observadores?
Uma coisa é certa: ele pede que nos afastemos do bulício social para melhor sermos capazes de cumprir a sua missão de busca pela verdade interior e íntima – mas também, como Diógenes, pela virtude, em nós como nos outros. Mas não nos pede que usemos esse afastamento como fuga.
Com o Eremita, criamos distância para podermos pôr a nú o mais importante e essencial, sem nos deixarmos distrair. Quem o use para fugir, estará a fugir de si mesmo.
A energia benfazeja que o Arcano 9 nos quer transmitir pede verdade e virtude, nos sentidos mais puros das duas palavras. Procurêmo-las em nós. E também nos outros, naqueles que nos podem acompanhar mais solidária e intimamente…

Imagem : Tarot New Palladini, de David Palladini, 1996

Clara Days