Palavras-chave: pertença; crença; ideologia; conformidade.

Vem o Arcano Maior 5 inspirar-nos, nos próximos dias.
Este Hierofante, que foi o Papa do Tarot ancestral, propõe-nos duas abordagens que, podendo parecer contrárias, talvez sejam complementares:
Ele é o Sumo Sacerdote de uma comunidade de crença, o mediador com o divino, aquele que preside aos ritos e preserva a herança ideológica, cultural e religiosa de uma comunidade. Nessa acepção, o Hierofante vem trazer-nos o preço moral da pertença, o conjunto de preceitos necessários que teremos de cumprir, para que possamos estar integrados sem reservas na comunidade a que ele preside.
Mas, ao mesmo tempo, o Hierofante é o sábio que busca saber mais sobre o que parece inacessível – representa, no Tarot, o Princípio da Transcendência Espiritual. A sua vontade e a sua acção vão no sentido da compreensão e aprofundamento dos saberes que, no seu sistema de valores e crenças, são sagrados. Convida-nos então a poder agir de modo semelhante, procurando o reforço das nossas convicções e ideologia numa atitude de estudo e investigação.
Numa leitura mais mundana do significado da carta, esta personagem pode também ser o político carismático, o professor, o médico, o juiz – a autoridade intelectual cujo saber e opinião se respeita e segue.
Voltando ao significado mais comum, digamos, então, que a primeira acepção do Arcano Maior 5, de natureza mais passiva, nos permite acolher-nos à sombra protectora (mas também restritiva) das convicções partilhadas, aceitando as regras e cumprindo os deveres inerentes a essa pertença. O Hierofante será aquele que interpreta e justifica a base de sustentação dessas convicções, pedindo-nos conformidade, isto é, que ajamos como todos os outros, conforme o pré-estabelecido. Em troca, dá-nos segurança e estrutura.
Mas, se olharmos para ele numa perspectiva de acção, somos inspirados para nos dedicarmos aos saberes da esfera espiritual ou ideológica com afinco e honestidade intelectual. Teremos de fazer nós as perguntas e procurar as respostas. Aí, temos toda a liberdade e toda a responsabilidade.
Estou ciente de que cada um de nós, em diferentes momentos da vida, pode sentir necessidade de recorrer à protecção da comunidade, e, noutros tantos, de procurar ir mais longe na compreensão de um sentido.

As representações gráficas partem do primitivo Papa, devidamente paramentado para o ofício religioso. O uso de manto, de bastão, de coroa ou chapéu ritual, o trono, investem-no de poder. Na tradição mais antiga dos baralhos de Tarot, ele fala para dois discípulos ou personagens inferiores, colocados num patamar mais baixo ou mais pequenos. Com o andar dos tempos, alargam-se as referências espirituais e a sua designação varia. Como Hierofante, ou Sumo Sacerdote, é ainda uma figura de hierarquia religiosa, com diferentes vestes, de acordo com as culturas ou religiões aludidas. Por vezes tem na mão uma chave, a que guarda os segredos, e / ou um livro sagrado. Pode ser mostrado de acordo com os gestos rituais das respectivas religiões, mas tem sempre uma postura que é de autoridade, ou de paternalismo. Há ainda baralhos que o associam a palavras, como Tradição, Fé, Reverência ou Revelação. No Tarot de Osho Zen, a carta é totalmente preta e intitula-se “O Vazio”.
O Hierofante está associado ao signo de Touro, conservador, realista, persistente. O seu número é generalizadamente respeitado: cinco são os dedos da mão, bem como os elementos fundamentais da tradição chinesa (água, madeira, fogo, terra, metal). A letra hebraica que lhe corresponde é VAV, o gancho que conecta os pilares da criação. O seu título esotérico: “O Mestre Triunfante”.

O Hierofante pode inspirar-nos em duas direcções distintas. Não se trata de serem o verso e o reverso da mesma medalha, antes um modo passivo e um modo activo de gerir a energia que corresponde ao Arcano Maior 5. Trata-se, de qualquer maneira, de uma abordagem ao mundo das ideias e do espírito, numa perspectiva de partilha ou de comunidade, na primeira acepção, e de aprendizagem ou aprofundamento, na segunda.
Temos pois, esta semana, a probabilidade de sentirmos uma necessidade de posicionamento pessoal em relação a valores, ideias, sistemas de crenças que nos desafiam. A entrada do Sol em Aquário desperta o sentido do colectivo, iluminando-o. O eclipse total da Lua com que a semana se inicia permite-nos a coragem para um recomeço em bases diferentes, para as quais podemos escolher ter uma postura ideológica mais consistente ou fundamentada.
Há muitos modos de lidar com a transcendência. Há muitos modos de ser espiritual. Para além disso, perguntemo-nos: somos seguidores ou actores? Estaremos mais despertos para essas dimensões de nós. Elevemo-nos então, para estar à altura do que merecemos.

Imagem: Tarot Ostara, de Morgan Applejohn, Eden Cooke, Krista Gibbard e Julia Iredale, 2017

Clara Days