Clara Days

Palavras-chave: subconsciente; silêncio; intuição; receptividade.

A Sacerdotisa vem trazer-nos a energia intuitiva e receptiva que se procura no silêncio e está intimamente ligada ao conceito de subconsciente. Ela pede calma e interiorização, como que uma gestação mental que se não processa com palavras. É a fonte das ideias que ainda não nasceram, dos sentimentos que virão a exprimir-se, o vivenciar da sombra como preparação para a luz.
A dicotomia feminino-masculino é um conceito ancestral que está associado a definições e estereótipos que derivam da cultura mas que se radicam, queiramos ou não, também numa base genética e instintiva, aperfeiçoada por milénios em que o Homo Sapiens, como caçador-recolector, dividiu as tarefas da sobrevivência colectiva, dando ao macho o papel de caçador e guerreiro, enquanto que a fêmea foi a recolectora e também a cuidadora dos mais frágeis – as crianças, sobretudo, pois não era tempo em que os idosos sobrevivessem. Essa longa era transformou os nossos cérebros do modo que hoje as neurociências reconhecem, e onde a mulher mostra (genericamente falando) mais capacidade de interpretar a comunicação não verbal, mais flexibilidade na gestão e uso simultâneo das diferentes zonas do cérebro, mais inteligência intra e inter-pessoal e facilidade uso da expressão verbal, enquanto que o homem revela mais inteligência espacial, melhor capacidade de se focar e concentrar numa só tarefa intelectual e no raciocínio lógico-dedutivo e ainda, por via da testosterona, uma atitude natural mais belicosa e potenciadora de conflitos.
Refiro tudo isto porque a Sacerdotisa, que chegou para nos inspirar na semana que começa, representa no Tarot o Princípio Feminino Universal, do modo como o taoismo oriental define a energia Yin – o princípio feminino, a noite, a Lua, a passividade, a absorção / receptividade.
Olhemos ainda para os “casais” constituídos pelos 4 primeiros Arcanos Maiores numerados do Tarot: o 1 é o Mago, Princípio Masculino Manifestado, aquele que transforma a ideia em matéria, emparelhando com esta Sacerdotisa, o 2, receptiva e intuitiva, feita de calma, enquanto ele representa a acção. Segue-se o par real, Imperatriz e Imperador, ela íntima, natural e protectora, ele social e regulador.

Primitivamente foi designada como Papisa e representada com vestimenta e paramentos em conformidade. Ao longo dos tempos, as representações visuais dos diferentes baralhos apresentam-nos uma mulher em pose frontal, com vestes rituais de oficiante religiosa ou deusa (nesse caso, Ísis a mais ilustre das deusas egípcias, com o seu adorno de cabeça característico). Ladeiam-na, frequentemente, duas colunas: uma branca, a outra preta, A primeira simboliza a luz ou a misericórdia; a segunda, as trevas ou a severidade. A Alta Sacerdotisa está entre ambas, equilibrada, passiva, olhando para nós. Sentada ou de pé, emana tranquilidade. Pode ter por trás de si um véu, cortina que separa o visível do invisível, e na mão um livro sagrado ou papiro enrolado. A presença frequente da lua no céu, ou representada no adorno de cabeça que ostenta, bem como o recurso aos tons azulados, aludem ao seu lado nocturno, misterioso e à sua sabedoria profunda. Baralhos recentes, mais eclécticos, podem apresentá-la como a oficiante de diferentes credos ou rituais.
Esta Sacerdotisa que está associada astrologicamente ao planeta Lua, que simboliza a Carência. A letra hebraica que lhe corresponde é GIMEL ou GUIMEL, a recompensa. O seu número 2 corresponde à dualidade – e, por isso, também à cooperação que permite o equilíbrio. Título esotérico deste Arcano Maior: “A Dama do Eterno”.

Pensemos nesta semana que entra como feita de dias de interiorização e preparação para uma abertura expansiva, mais à frente. Os projectos podem estar ainda indefinidos, por isso precisam de silêncio e de tempo para uma gestação interna. Na altura certa, poderão sair à luz do dia e ser partilhados.
É como que nos seja sugerido que não nos apressemos na tomada de decisões que ainda não estejam maduras. Há que dar espaço para que as ideias nasçam e se comecem a organizar de modo intuitivo e livre, porque pode ainda não ser possível – ou necessário – racionalizá-las. Isso virá, mas não adianta apressar o processo.
Tal como uma maçã não fica madura sem tempo e sol, assim uma ideia, uma decisão. A maçã está ali, grande, luzidia, formada – mas verde, ainda sem a cor certa, que só o amadurecimento final lhe trará. A decisão que se toma antes de estar internamente amadurecida é como uma maçã apanhada antes do tempo: não será boa, mas apenas porque não houve a paciência sábia de a deixar amadurecer.
Não sintamos esta etapa, que pode ser de silêncio e interiorização, como um desperdício, ou como atraso. Ela tem de ser cumprida, para que não corramos o risco de dar um passo maior do que a perna, de nos precipitarmos sem uma base de apoio, ou de corrermos sem forças para aguentar a velocidade.
Deixemos que o silêncio sombrio da Sacerdotisa nos conecte com o que é internamente importante que venha a ser cumprido. Demos tempo ao tempo, entreguemo-nos a nós… O futuro mostrará o quanto isto pode ter sido importante. A sombra transformar-se-á em luz – a seu tempo.

Imagem: The Alchemical Tarot, de Robert M. Place, 2008

Clara Days