Por Clara Days:
Palavras-chave: Emoção; intuição; sonho; profundidade.

Nesta semana em que a Lua Nova celeste se esconde de nós, vem a Lua do Tarot trazer-nos uma energia de sombra e profundidade, que nos leva para dentro do que emociona e também do que nos tolhe, aquele lado de nós que tendemos a esconder e tantas vezes pretendemos ignorar.
Não se trata de enfrentar uma escuridão desconhecida, pois fala do nosso lado mais íntimo e profundo. Antes pede o confronto dos medos e nos leva à raiz das inseguranças. A Lua fala connosco nos sonhos, não no sentido supersticioso ou divinatório, mas no de revelarem aquilo que temos dificuldade em verbalizar e o que verdadeiramente nos preocupa ou atormenta.
Na semana passada, com a Sacerdotisa, arcano 2, iniciámos este caminho mais íntimo. Esta é uma personagem e integra o primeiro septenário dos Arcanos Maiores, as sete cartas iniciais que correspondem ao processo de afirmação pessoal perante o mundo e os outros. A Lua, Arcano Maior 18, é um elemento celeste e integra o terceiro septenário, o mais elevado em termos de auto-consciência, também representativo da nossa abertura ao Universo. É como se assim o caminho prossiga, mas passe da intuição sem palavras à compreensão mais assumida. A Lua ensina-nos a conhecer e conviver com as nossas sombras. No Tarot de Osho Zen, é chamada “As vidas passadas”; outros autores atribuem-lhe designações como Crepúsculo ou Anseio.

Nos baralhos mais ancestrais, ela aparecia com imagens de astrónomos, ou nas mãos de uma mulher. Mas as simbologias que se entrecruzam criaram, a partir do séc. XVIII, particularmente no chamado Tarot de Marselha, uma representação visual que veio a predominar e que ainda hoje impregna a maioria das imagens produzidas: uma Lua com perfil de rosto humano, parecendo atrair para cima “lágrimas” de várias cores. No chão, dois cães (ou lobos?) como que interagem com ela, virando-se para cima ou uivando; ao fundo há duas colunas, geralmente uma branca e a outra preta, que enquadram lateralmente a imagem; em baixo, água de onde sai um lavagante, ou caranguejo. No Tarot de Crowley surge em baixo o escaravelho sagrado da mitologia egípcia, Kephra, pai dos deuses, enquanto que em frente das colunas estão duas representações simétricas de Anúbis, o deus com cabeça de chacal, e também os dois cães.
A Lua do Tarot corresponde ao signo onde transita agora o Sol, Peixes, da devoção, da transcendência (enquanto que a Lua astrológica está referenciada à Sacerdotisa, que nos acompanhou na semana que passou). A letra hebraica que corresponde a esta Lua é KOPH, ou KUF, um ciclo de tempo. O seu número 18, na numerologia cabalística, representa imaginação, instabilidade e algo oculto. O seu título esotérico é “O Regulador do Fluxo e do Refluxo” ou “A criança dos Filhos do Poder”.

Este tempo de viagem interior ainda não terminou. Agora é altura de enfrentar o mais difícil, que é a nossa sombra: as memórias que nos prendem ou assombram, as inseguranças, as emoções mais fortes e reprimidas. Estão aí as raízes dos nossos medos e preocupações maiores, que só se formos capazes de reconhecer e integrar poderemos pacificar.
É muito comum andar-se na vida sem dar tempo para processar os sentimentos mais íntimos e verdadeiros; é comum andar-se na vida escondendo as nossas feridas emocionais, muitas vezes escondendo-as de nós próprios. Todos precisámos de criar, no crescimento e amadurecimento, uma personagem pública que nos permite funcionar socialmente, mas que nem sempre ecoa o que vai dentro de nós – e, por vezes, nos faz agir contra o que verdadeiramente somos e sentimos.
Pois a Lua quer que viajemos para esses lugares. A Lua pede que encaremos o nosso lado “escuro” como o reverso da luz, aquilo que lhe dá contraste e importância. Luz e sombra definem a vida, realçando-se mutuamente: só entendendo a sombra podemos verdadeiramente compreender a luz…

Imagem: Tarot de David Crowley, desenho de Frieda Harris (década de 1940, 1ª edição 1969)

Clara Days