Por Clara Days:

Palavras-chave: determinação; compulsão; instinto; preservação.

Sou quem sou e arrisco tudo para preservar a minha independência. Assumo as consequências, aceito a solidão. Guio-me pelos meus instintos e pela minha vontade. Sou o Arcano Maior 15, o Diabo.
Longe vão já os tempos em que a figura apenas se referenciava ao maligno ser bíblico, fonte de tentações e malevolência. Na própria Bíblia, Lúcifer era o portador da luz. Anjo caído, passou a estar associado à sombra. Ora, o Diabo do Tarot não é luz nem sombra, é antes a essência duma força interior que sai a terreiro, não para confrontar, mas para se exprimir com autenticidade e audácia. O Diabo é leal a si mesmo e presta contas, também a si mesmo. Certo, pode não ser compreendido. Certo, pode até ofender outros, pelas suas atitudes. Mas isso são decorrências do inconformismo, não ataques directos.
Não é fácil, viver como Diabo. Não há apoios externos, não há muletas. Há mesmo – e convém não omitir esse risco – a possibilidade de se procurar compensar vazios com comportamentos aditivos. Mas isso não é o mais importante, embora devamos tê-lo em consideração e procurar evitá-lo. O Diabo usa os instintos como sua bússola interna, e estes são as armas naturais que nos permitem preservar a vida e a nossa espécie. Aqui, irracionalidade alinha com vontade, por contraditório que isto pareça.
O Tarot de Osho Zen chama a esta carta “Os Condicionamentos”, outros designam-na como “Paixão”, “Natureza” ou “Sombra”. Há ainda baralhos que o nomeiam a partir de personagens míticas ou deuses pagãos, como Pã ou Cerunos.

O Diabo aparece nas imagens como uma personagem híbrida, composição que mistura o ser humano com partes de animais, sobretudo com chifres. Pode apresentar asas de morcego, pés de cabra, cauda, traços reptilianos… É uma espécie de síntese animalesca, e surge frequentemente como carrasco ou guardião de um casal de humanos, a si acorrentados. Pode estar atrás de alguém que aparenta sofrimento, tristeza ou melancolia, como que influenciando esses sentimentos. Mas pode surgir como facilitador de rituais, usando como vestuário peles de animais, ou adornos de cabeça que são armações de veado, por exemplo. Acompanham-no, frequentemente, símbolos como a estrela de cinco pontas, direita ou invertida, ou animais como a serpente, carregada de sentidos, ou a mosca, companheira da decomposição. Há também, em alguns baralhos, elementos denunciadores de elevação e espiritualidade, como o terceiro olho.
Astrologicamente, está associado a Capricórnio, signo cardinal de terra e, assim, simbólico de gestação. A letra hebraica que lhe corresponde é AYIN, o Olho, como fonte do carácter. O número 6, que soma 1+5 (15), é generalizadamente considerado um número de harmonia e equilíbrio. Os seus títulos esotéricos: “Senhor das Portas da Matéria” ou “Filho das Forças do Tempo”.

Vivemos um momento em que a força da nossa natureza pode exprimir-se publicamente, com tudo o que isso venha a acarretar. Há muita fisicalidade nestes comportamentos, é como se a nossa essência mais primária se manifeste, passando ao acto.
Estes podem ser tempos mais libertadores, se conseguirmos geri-los num sentido positivo. É como se os fins, agora, justifiquem os meios, até porque se trata duma atitude de independência onde não pretendemos prejudicar ninguém.
Há, nesta semana, uma inspiração para que arrisquemos tomar decisões que até podem ser incómodas, mas que representam aquilo que, instintiva e irracionalmente, verdadeiramente queremos.
Ser autêntico e verdadeiro é arriscado, ousado, libertador. Há momentos em que é preciso que aconteça, sejam quais forem as consequências. Mas será que temos coragem? Será que somos capazes de avançar segundo a nossa natureza? Do que decidirmos, ou fizermos, seremos os únicos responsáveis.

Imagem: Tarot of the Sevenfold Mystery, de Robert M. Place, 2012

Clara Days