Por Clara Days:

Palavras-chave: desapego; vontade; foco; renovação.

Onde estou, não ficarei. O que aqui havia não me serve, é preciso procurar novas demandas, novos desafios, novas paragens. Vou só, protegido pela força do que a vida me ensinou, ainda que isso possa ser feito de mágoas passadas. Monto o meu Carro, conduzo os cavalos. Sou eu quem determina o rumo.
Assim é o Princípio do Desapego. Feito de conflito e de coragem, de contradições que apenas eu saberei ultrapassar. Há um misto de solidão e de vontade, nesta jornada de afirmação pessoal que encerra o primeiro septenário de Arcanos Maiores, o que se refere à construção da minha estrutura corporal, mental, emocional, proactiva, para encarar com autonomia o mundo e a vida.
No fundo, é da dor passada que me quero desapegar. Volto-lhe costas, sem olhar para trás, e aqui vou, firme e decidido, pronto para o que der e vier. A verdade é que não tenho uma meta, mas tenho um caminho. A cada momento tomo a decisão necessária, vou definindo o rumo. Sei que vou para melhor, porque acredito na força do meu poder pessoal. Só a mim recorro, só a mim prestarei contas.
As bestas que puxam o meu Carro podem parecer desgovernadas, podem querer desviar-me, mas as rédeas estão firmes. Enfrento o que for preciso, protegido pela carapaça que construí, aquela que, julgo, me possa evitar a repetição de padrões dolorosos. Mas isso agrava a minha solidão e não permite que outros se aproximem, mesmo que venham por bem. Talvez fosse melhor para mim correr o risco de poder voltar a sentir desilusão, quem sabe…
O Tarot tradicional centra a definição deste Arcano no objecto / veículo, como se o que esteja mais em foco seja o meio e não o actor. Com sentidos diversos, o Tarot de Osho Zen chama-lhe “Consciência”, outros escolhem designações como “Triunfo”, “Partida”, “Desacordo” ou referenciam-no a personagens de diferentes mitologias como Herne, o Caçador, do folclore inglês.

A maioria das imagens das cartas retrata um cavaleiro no seu carro, que pode ser de combate, mais ou menos protegido com armadura e armas de guerra (espada, escudo, capacete). A figura tanto pode ser régia, com trajes principescos ou coroa de louros, como mais prosaica. O Carro é puxado por dois ou mais animais, geralmente cavalos, mas podem ser também bois ou figuras mitológicas, como esfinges. É nesses animais que a dimensão de contradição que caracteriza a carta se evidencia, pois ou são de cores distintas, ou olham em direcções distintas. É frequente a presença do símbolo chinês da dicotomia yin / yang.
Curiosamente, o Carro é associado em astrologia a Caranguejo, signo de água regido pela Lua; há nesta associação uma referência implícita à importância de respeitarmos a nossa essência. No entanto, alguns autores associam-no a outros elementos astrológicos. A letra hebraica que lhe corresponde é CHETH ou CHET, a dinâmica do partir e regressar. Na numerologia pitagórica, o 7 é um número de grande espiritualidade. Título esotérico deste Arcano Maior: “O Senhor do Triunfo da Luz”.

Estamos bem aqui, onde estamos? Em que medida o que nos prendia pode já ter esgotado o seu sentido, nas nossas vidas? Em que medida temos que cortar amarras e partir para novos desafios?
O mais importante é que tomemos consciência das nossas contradições internas e encontremos a bússola íntima que nos orientará. Somos inspirados, com a energia deste Carro, para a afirmação pessoal, assertiva, onde o auto-controle pode imperar.
Mas levemos em conta o risco de nos fecharmos e activarmos defesas quase intransponíveis, em consequência das feridas passadas. Em boa verdade, estar absolutamente só pode ser uma via mais sofrida… Seremos nós capazes de partir com vontade e convicção, mas deixando espaço para sermos tocados pelo bem que possa vir de fora?
De qualquer maneira, nesta semana que entra, em cima do nosso Carro, podemos tomar as rédeas e avançar, por onde a vontade nos queira levar.

Imagem : Tarot Alchemical Renewed, de Robert M. Place, 4ª edição, renovada em 2014

Clara Days