Por Clara Days:

Palavras-chave: emoção; intuição; passado; imaginação

De onde nasceram as sombras que trago dentro de mim? Que rastos do passado marcaram fundo quem sou, que memórias guardei para não lembrar, e que ainda hoje acordam os meus medos? De onde vêm os enredos dos meus sonhos, portais do subconsciente?
A Lua ecoa o que foi, o que vivi, trazendo-os para o meu presente. Governa a minha intuição, feita de experiências passadas, ancestrais na minha genética ou recentes, da minha vida, que me permitem pressentir o perigo, confiar ou desconfiar, também reconhecer uma afinidade, uma alma gémea.
A Lua faz-me capaz de sentir a emoção, a comoção, que nasce dum cheiro, dum som, duma imagem, duma palavra, de tudo o que me toca fundo sem eu esperar, sem eu controlar. Ela tem as lágrimas da tristeza e da alegria.
A Lua guarda os meus segredos, mas também desperta a minha imaginação. Dá-me asas para voar em pensamento, para encontrar beleza interior no que me rodeia. Faz-me encontrar jardins escondidos, arcas do tesouro, abismos da alma.
Diferentes baralhos chamam-lhe também “Vidas Passadas”, “Crepúsculo”, “Anseio”, “Ilusão”.
Alguns reconhecem na Lua o Arcano do Karma. Ela representa o meu lado íntimo, de mim para comigo, convidando-me a uma viagem interior. É também o outro lado do meu espelho…

Na maioria das representações visuais há três planos: em cima, o céu, onde uma Lua de rosto humano despeja (ou recolhe?) gotas-lágrima que a ligam ao segundo plano, a terra. Na terra há simetrias de semelhanças contrárias: duas torres de cores diferentes, dois cães (ou lobos?) de cores diferentes. Uns são claros, os outros escuros. Em baixo, a água, de onde sai um lavagante, um crustáceo, criatura ancestral que sai do seu habitat para via à tona, para se mostrar.
Mas há também cartas com personagens humanas, e, nesse caso, são geralmente astrónomos, homens ou mulheres que medem as distâncias entre os astros. Outras pessoas podem representar emoções ou situações relacionadas com a simbologia da Lua.
A letra hebraica que lhe corresponde é KOPH, ou KUF, um ciclo de tempo. O seu título esotérico é “O Regulador do Fluxo e do Refluxo”. O número 18 pode simbolizar a imaginação, mas quando reduzido a 9, na numerologia comum, está associado ao altruísmo, à fraternidade e à espiritualidade.
Não se pense que este Arcano corresponde astrologicamente ao planeta Lua; esta é reservado à Sacerdotisa, o 3. A Lua do Tarot corresponde ao signo de Peixes, mutante, de água, o último do ciclo anual do Zodíaco. São as águas universais, os oceanos, onde mora a sensibilidade da poesia, o misticismo, o sonho, a tendência para a evasão. Também os Peixes são dois simétricos, numa interacção permanente.

Ora bem, temos pela frente uma semana com a Lua e, nesse entretanto, o Sol entrará no signo de Escorpião, que também é de Água, como os Peixes. É como se nos seja pedido que estejamos disponíveis para enfrentar o nosso lado escuro, a intimidade onde moram os medos que nos condicionam.
Uma viagem com a Lua não é agradável, mas é necessária. Só quando iluminamos as nossas sombras somos capazes de nos fortalecer. Mas não nos é pedido propriamente um tempo de sólida introspecção – essa seria a mensagem do Eremita. Antes estaremos inspirados para interpretar os nossos próprios sinais, procurando entender as reservas, os receios, os anseios. Há sempre uma explicação subjectiva para as nossas reacções espontâneas…
Será uma semana para sonhar e imaginar, também. Articulada, ou não, com a vida prática, haverá uma tendência para a evasão, que pode funcionar como compensação da dura realidade, mas seria bom que não servisse apenas como fuga.
Voemos para dentro de nós, iluminemos as sombras, deixemos à solta os sonhos e a fantasia…

Imagem : Tarot Aquarian, de David Palladini, 1970

Clara Days