Por Clara Days:

Palavras-chave: Esperança; inspiração; confiança; serenidade.

Nestes duros tempos de sombra, em que pedem que nos afastemos uns dos outros, vem a Estrela acender a luz da esperança que mora dentro de cada um de nós. É a Estrela-guia, que indica os caminhos e nos anima a seguir com confiança.
Pode parecer uma ironia que venha, agora, quando o medo se instalou nos corações, e com razão. Mas é precisamente o contrário: ela vem para lembrar que haverá sempre uma luz que alumiará a escuridão e que, por muito dura que seja a caminhada, por muita devastação que possa haver nessa estrada, o espírito humano encontrará a saída e será vencedor.
Quem sabe, não há no meio disto um sinal para nos fazer rever as prioridades e voltar aos valores mais puros? Há qualquer coisa de assustador, numa pandemia que leva os velhos, mas poupa as crianças; no entanto, há nisso mesmo, também, uma mensagem de renovação.
E é de renovação que se trata, pois a Estrela representa, entre os Arcanos Maiores, o princípio da Renovação das Categorias, o que, na linguagem comum, podemos associar a essa tal revisão de prioridades.
A Estrela combate o medo, pelo lado da inspiração, não tanto pelo da coragem. A Estrela não explica, mas anima, ajuda a que cada um de nós traga para fora o melhor de si e se projecte para o futuro

O Tarot de Osho Zen chama a este arcano “O Silêncio”, outros atribuem-lhe designações como “Aqui e agora” ou “Estrela Polar”.
O curioso é que esta carta representa, sobretudo, uma mulher e água, em contacto directo. Pode haver duas taças, que ela verte, junto à beira de um rio ou lago, uma para terra, outra para a água. Pode haver a estrela lá em cima, brilhando no céu, mas é como se a mulher a veja cá em baixo, reflectida no mar das emoções. Esta mulher surge geralmente nua, sem pudor, numa atitude de inocência e confiança. Há, pois, uma estrela no céu, outra na água, e há a mulher: quem é a Estrela do Tarot? Qual das três? Ou serão, precisamente, as três?
Este Arcano Maior 17 está associado à letra hebraica HE ou HETH, a abertura, a janela. O seu número passa uma ideia de pureza e espiritualidade – são 17 os gestos litúrgicos e as palavras que compõem a chamada à oração da tradição muçulmana. O título esotérico da carta tem duas designações: “A Filha do Firmamento” ou “O Habitante entre as Águas”.
Astrologicamente, a Estrela corresponde a Aquário, signo de Ar, fixo, regido por Urano (e também Saturno). Os respectivos símbolos, da carta e do signo, são idênticos: uma pessoa que verte água. Aquário representa o altruísmo e a universalidade, a elevação dos valores colectivos. Vivemos a entrada na sua Era, que durará um pouco mais de dois mil anos e se segue à Era de Peixes, cujo início foi associado ao nascimento do cristianismo. Quem sabe se esta crise, que agora vivemos, não representa um passo importante na entrada da Era de Aquário?

Estamos a viver um tempo cujos contornos não têm precedente. A ameaça é mortal e natural e só podemos evitá-la afastando-nos, fisicamente, uns dos outros. Mas o que vemos e sentimos, na forma como as pessoas estão, dentro das suas cápsulas individuais, é que estamos em comunhão, na procura do entendimento, na recuperação da solidariedade, no recurso à música e ao riso para nos sentirmos unidos. Talvez estejamos bem mais próximos uns dos outros do que há um mês atrás…
Cada um vive este tempo à sua maneira, de acordo com a sua individualidade, mas também com a sua função na sociedade: há os heróis que dão o peito às balas e combatem no terreno da saúde; há os heróis que abnegadamente se dedicam para que nada falte aos outros; e há esta maioria, feita de crianças, idosos e pais, também de trabalhadores nas suas casas, que se resguarda e procura, a cada dia que passa, um modo criativo e novo de estar.
Elevemo-nos, superando o medo pela força da esperança. Agora, mais do que nunca, sabemos o papel que cada um de nós tem, perante os outros, dum modo muito directo e sensível. Estejamos à altura, sigamos a Estrela que temos no nosso coração.

Imagem : Tarot Crystal, de Elisabetta Trevisan, 2010

Clara Days